Entrevistas

DAVE SHARMAN

A SERVIÇO A MÚSICA

Nascido em West Midlands (ING), o guitarrista Dave Sharman começou a tocar aos 9 anos e nunca mais parou. Criança prodígio, desenvolveu seu estilo ouvindo e aprendendo riffs de bandas como Van Halen, Rush, Boston, Journey e Lynyrd Skynyrd. Sua primeira grande oportunidade surgiu em 1989 quando, aos 19 anos, foi convidado para se apresentar no programa “Friday Rock Show”, da rádio BBC, que era apresentando pelo conhecido DJ Tommy Vance. Quando o programa foi ao ar, causou verdadeira comoção no meio musical e muitos selos procuraram o jovem músico. Isso culminou em 1990, disco de estreia de uma carreira que chega agora a seu quarto lançamento, Evolution Machine, no qual ele compôs todas as músicas, tocou guitarra, baixo, bateria e teclados e ainda cantou. Trata-se de um autêntico álbum de guitarrista, ao estilo Steve Vai ou Eddie Van Halen, mas que também apresenta momentos mais suaves através de algumas baladas. Nesta entrevista, Sharman fala sobre o novo disco e sobre o que almeja em sua carreira.

Você começou a tocar aos 9 anos. Você lembra do que fez você se decidir pelo instrumento?
Dave Sharman:
 Meu irmão mais velho voltou da escola certo dia com uma caixa de discos de vinil que ele comprou de um amigo. Lembro que comecei a mexer naqueles discos e ouvir todos eles. Eram de bandas como Kiss, Rush, Deep Purple e AC/DC. Foi como se um mundo novo se abrisse à minha frente! Mas o que mais me impressionou foi o primeiro disco do Van Halen. Assim, que eu ouvi Eruption eu descobri que era aquilo que eu queria para mim.

Como criança prodígio que você foi, aprender guitarra foi algo simples para você ou houve algum aspecto em que você teve maior dificuldade?
Dave:
 Tocar guitarra sempre foi algo totalmente natural para mim. Eu adorei o desafio, na verdade, me deixei fascinar por ele. Lógico que, até pelo fato de eu ainda ser criança, alguns acordes mais complicados eram mais difíceis, principalmente porque meu primeiro instrumento foi um violão Yamaha enorme, ele era maior do que eu! (risos) Tinha que fazer um grande esforço para montar certos acordes, já que minhas mãos não eram grandes o suficiente. Também tive que descobrir qual a bitola de cordas mais adequada para mim e quando criei um jogo híbrido, mudando a corda mi mais aguda de .009 para .008 e a sol de .016 para .014. Isso me ajudou muito na época e até hoje eu uso essa configuração. E, mesmo usando cordas mais finas, eu raramente quebro alguma.

Você sempre comenta que suas influências vêm de Eddie Van Halen, Alex Lifeson e Neal Schon. São guitarristas bem diferentes entre si. O que você absorveu de cada um deles?
Dave: 
Eddie provavelmente foi o que mais impacto causou em mim em termos de potencial da guitarra. Naqueles primeiros discos do Van Halen ele realmente quebrou barreiras de como usar o instrumento em termos sonoros e artísticos. A forma como passou a usar a alavanca foi simplesmente revolucionária. Já Alex Lifeson criou uma sonoridade única com suas texturas e progressões de acordes que fizeram o som do Rush se tornar tão especial. Neal Schon tem um ‘feeling’ muito especial e eu sempre adorei seu timbre. Ele é um dos poucos músicos que conheço que consegue se valer da velocidade sem perder a emoção quando toca. Ele faz você querer comprar uma Gibson Les Paul! (risos)

Outro guitarrista que você normalmente cita é Allen Collins (Lynyrd Skynrd). Você gosta de Southern Rock e de bandas como Allman Brothers e ZZ Top?
Dave: 
Eu tive muita sorte por conseguir uma cópia de pronounced leh-nerd skin-nerd (N.T.: disco de estreia do Lynyrd Skynyrd) quando tinha 12 anos. Allen, Gary Rossington e Ed King (N.T.: os três guitarristas que gravaram o álbum) tinham estilos bem próprios. Os solos deles eram muito criativos, basta ouvir Freebird para comprovar. Eu comprei minha primeira guitarra Gibson Explorer por causa de Allen Collins. E Duane Allman e Billy Gibbons estão entre os músicos mais importantes que eu conheço.

Allen Collins, Tom Scholz e muitos outros que você cita são americanos. As bandas inglesas não te impressionam?
Dave: 
Claro que sim! Deep Purple, Yes e Rainbow estão quase que permanentemente no meu aparelho de som. Pra falar a verdade, minha primeira apresentação diante de uma plateia foi num recital na escola em que toquei uma música que tinha trechos de Mood For A Day de Steve Howe e Eruption do Van Halen. Até hoje não sei se alguém gravou isso. Tomara que sim…

O que você pensa sobre Jeff Beck, Ritchie Blackmore e Paul Kossoff?
Dave: 
Beck faz a guitarra cantar. Ele é um daqueles músicos que você reconhece nas primeiras notas. Também sempre admirei a influência Clássica de Ritchie Blackmore, que acabou se tornando uma característica do som do Deep Purple. Ele é o mentor de Yngwie Malmsteen. Já Kossoff era um mestre nos riffs. E também tinha um ótimo vibrato, que até hoje me faz lembrar de Angus Young.

Você percebe alguma diferença de abordagem do instrumento entre guitarristas americanos e ingleses?
Dave:
 Acho que os americanos costumam ser mais ousados. Os ingleses tendem a ser mais discretos e reservados por natureza e mostram mais influência de Música Clássica e de Blues. Mas ambos fazem um ótimo Rock’n’Roll!

Logo no início da sua carreira você já percebeu que preferiria ser um artista solo em ver de fazer parte de uma banda?
Dave: 
Na verdade, não. Mas, é como dizem, a necessidade é a mãe da invenção. Eu criei uma forma de atuação que era a mais oportuna para mim naquele momento. Seria muito legal fazer parte de uma boa banda, mas quando eu estava crescendo há muito poucos músicos realmente bons no mercado. Além disso, eu não estava muito disposto a ficar dependendo dos outros.

Em 1989 você participou do programa na BBC, no qual mostrou músicas como Pandora’s Box e Spellbinder. As duas acabaram aparecendo no seu disco de estreia, 1990. Qual o seu sentimento sobre essas músicas quando você olha para elas atualmente?
Dave:
 Era uma coisa muito crua, naturalmente. Meu estilo de compor ainda estava se formando, eu ainda era bem imaturo e bem menos refinado do que hoje em dia. Mas, por outro lado, há nelas uma energia própria dos jovens. Acho que, para o momento em que foram feitas, elas cumpriram bem seu papel. Há uma diferença de atitude, mas tudo tem que acontecer a seu tempo.

Qual equipamento você usou nessa apresentação?
Dave: 
A guitarra era uma Hamer Explorer, que foi meu primeiro instrumento com alavanca Kahler. Muita gente prefere a Floyd Rose, mas eu acho a Kahler muito mais confortável de manusear. Também usei um amplificador Hughes & Kettner Tubeman que foi ligado direto na mesa para tornar as coisas mais fáceis.

Você escreveu todas as músicas e tocou todos os instrumentos em 1990. Você tem necessidade de fazer tudo sozinho?
Dave: 
Acho que isso é uma característica natural de quem é autodidata. Eu comecei a escrever minhas próprias músicas logo que aprendi os primeiros acordes. E logo cheguei a um ponto em que ficou fácil transitar por outros instrumentos. Naturalmente, baixo, teclados e bateria foram os primeiros a que me dediquei.

Quando você começou a usar as guitarras Jackson?
Dave: 
1990 foi o início do meu caso de amor com as Jackson (risos). Nesse disco, eu usei uma Soloist Custom preta. É um modelo bem antigo e raro, só foram feitas duzentas unidades dele. É um modelo com braço de duas oitavas e alavanca Kahler. Logo depois de lançar o disco, tive a sorte de receber uma proposta de ‘endorsement’ da Jackson e pude criar meu próprio instrumento, com especificações e desenho próprios.

E você também coproduziu 1990.
Dave: 
Acontece que eu tinha bem claro como o disco deveria soar, então fazer a coprodução dele acabou sendo uma parte natural do processo.

A Noise Records colocou nos seus discos o slogan ‘Europe’s Answer To Joe Satriani’ (N.T.: a resposta da Europa a Joe Satriani). Você achou uma boa ideia?
Dave:
 Na verdade, eu nunca achei que soasse parecido com ele. Ao contrário do que acontece em relação a Eddie Van Halen, Yngwie Malmsteen ou Allan Holdsworth, Satriani nunca me influenciou. Você quer saber se eu concordo com aquela frase? A não ser pelo fato de que nós dois fazemos discos instrumentais, acho que não temos nada em comum.

Como foi a experiência de trabalhar com Ian Gillan naquela época? É muito diferente acompanhar um vocalista em vez de ser a atração principal?
Dave: 
Imagine você, muito jovem, e de repente uma estrela do Rock vai até a casa de seus pais, senta na sala, te dá uma fita demo e diz: ‘Veja o que consegue fazer com esse material.’ Na hora você se dá conta que é uma oportunidade que não acontece todo dia. E ele é um cara totalmente simples, não tem nada de ditador, permite que todos que trabalham com ele possam ajudar na parte de criação. Uma das minhas melhores lembranças dessa época é de quando estava fazendo uma jam no estúdio de Gillan com Neil Murray no baixo, Cozy Powell na bateria e Ian no vocal. Tocamos Smoke On The Water, Child In Time e vários outros clássicos. Eu ainda tenho as gravações desses ensaios.

E como foi participar da tour ‘Night Of The Guitars II’ com Robin Trower, Ronnie Montrose, Rick Derringer, Laurie Wisefield e muitos outros?
Dave: 
Foi muito interessante conviver com todas essas personalidades. Eu enchi a paciência de Ronnie Montrose, ficava o tempo todo perguntando como era tocar com Alan Holdsworth (risos). Ele provavelmente pensou: ‘Por que esse moleque fica falando comigo sobre Holdsworth? Será que ele não sabe que sou Ronnie Montrose?’ (risos) Jan Akkerman era louco, extremamente talentoso mas um pouco perigoso… Mas todos eles eram muito legais, cada um de seu modo.

Você se sentiu de alguma forma desafiado por ter que tocar com esses grandes músicos?
Dave: 
Pode até parecer estranho, mas eu nunca encarei isso como uma competição. Eles não eram meus rivais, era um pessoal mais velho e muito mais experiente. Fiquei feliz porque tive a oportunidade de mostrar meu trabalho e ainda conviver com eles.

Você se lembra de algum momento especial que aconteceu nesses shows?
Dave:
 Teve uma vez que, depois de um show, Robin Trower chegou a mim no camarim e disse: ‘Aposto que você não consegue tocar do jeito que toca se usar uma das minhas guitarras.’ Na mesma hora, pegou uma de suas Fender e me ofereceu. Foi uma situação interessante. Acho que ele imaginava que era preciso um tipo específico de instrumento para fazer um som mais técnico como o que fazia. E a Stratocaster dele acabou funcionando até melhor que minha Jackson!

Você era fã de Robin Trower com o Procol Harum? E de Laurie Wisefield com o Wishbone Ash?
Dave:
 Bem, todo mundo conhece A Whiter Shade Of Pale, não é mesmo? E eu tinha alguns discos do Wishbone Ash, como No Smoke Without Fire e Raw To The Bone. Laurie é um sujeito muito bacana e um grande músico.

No seu segundo disco solo, Exit Within (1992) há quatro faixas com vocais. É preciso uma abordagem diferente na hora de compor uma música com vozes?
Dave: 
Um pouco, mas bem menos do que as pessoas imaginam. Na verdade, o que você tem que fazer é substituir parte do solo de guitarra pela linha vocal. O que você precisa ter em mente é que é necessário atrair a atenção do ouvinte, o que envolve criar temas cativantes e melodias bem variadas.

Home é uma bela balada que se transforma num tema bem elétrico. De onde meu a inspiração para você compor essa música?
Dave: 
Eu sempre fui fã de bandas clássicas como Boston, Journey e REO Speedwagon sempre escreveram ótimas baladas. E elas tiveram forte influência em mim. Eu nunca tive muitos violões, mas um dia chegou até mim um violão de doze cordas que acabei usando como ponto de partida para Home.

Você se inspirou em Jimmy Page na abordagem dos instrumentos acústicos?
Dave: 
Sim, claro! Led Zepellin III é um grande disco, apesar de subestimado. Ele é praticamente um Led Zeppelin acústico! A característica principal dele é a forma como Page toca as partes acústicas, em muitos momentos parece um guitarrista de Folk flertando com um lado sombrio.

E o que você acha do uso de instrumentos acústicos por parte de Pete Townshend?
Dave: 
Ele é um guitarrista base excepcional e brilha ainda mais quando trabalha com instrumentos acústicos. Vários dos temas clássicos do Who foram criados com violão, como a introdução de Pinball Wizard, por exemplo.

No seu terceiro disco, Hear’n’Now (1994), há mais músicas com vocais. Você pretendia dar esse direcionamento ao seu trabalho ou era uma espécie de experimento?
Dave: 
Eu sempre fui mais um compositor do que qualquer outra coisa e a guitarra é minha ferramenta de trabalho. Porém, quem manda é a música e eu sempre deixei que ela determinasse como deveria ser.

No disco Wave (N.T.: gravado em 1999 mas nunca oficialmente lançado) você rompeu com o vocalista Thomas Brache e assumiu os vocais. Você se sente confortável  cantando? Chegou a procurar por outro cantor?
Dave: 
Bem, como era eu que escrevia as músicas, essa transição foi bem simples. Só precisava me acostumar a ficar na frente do microfone. Há prós e contras nessa situação. Naturalmente, você não tem a mesma liberdade de movimentação no palco, mas ao mesmo tempo passa a ter uma conexão muito mais forte com o público. Por isso tudo eu nem perdi tempo procurando um substituto.

Por que Wave nunca foi lançado?
Dave: 
Porque eu sempre considerei esse disco uma demo. Eu queria fazer uma experiência para ver qual a melhor forma de incorporar minha voz às músicas. Foi por isso que eu nunca lancei o disco. Mas há boas músicas nele e eu ainda pretendo retrabalhar esse material.

No começo dos anos 2000, você formou a banda Rain, que tinha vocais femininos. Foi mais uma experiência?
Dave: 
Sim, acho que ‘experiência’ é a palavra correta nesse caso. Eu queria escrever algumas músicas que fugissem um pouco do virtuosismo e focassem mais na melodia. Queria me expressar através de um outro lado de minha personalidade musical.

Você gosta das bandas com vocalistas mulheres?
Dave: 
Não muito… Desculpem, garotas (risos). De todo modo, há algumas mulheres que são excelentes cantoras. Como Alanis Morissette, por exemplo.

Em Evolution Machine você voltou a tocar todos os instrumentos, a cantar e assinar todo o material. É trabalhando dessa forma que você se sente mais à vontade?
Dave: 
É uma forma de trabalho em que eu tenho muita experiência. Claro que dá muito mais trabalho fazer tudo sozinho, mas o nível de satisfação que existe ao finalizar cada faixa é muito maior. Eu sempre escrevi meu próprio material, então isso é muito natural para mim. Tudo é uma questão de envolvimento. Eu comecei como guitarrista, mas hoje também canto e toco vários outros instrumentos, e isso acaba fazendo parte da forma como trabalho atualmente.

Hunger é uma faixa com influência de música oriental. Como ela surgiu?
Dave: 
Eu sempre admirei o citarista Ravi Shankar. Ele tem trabalhos fantásticos em sua carreira, como o que fez junto com o violinista Yehudi Menuhin. Ravi desenvolveu uma forma de se tocar cítara e ele é uma das principais razões por haver despertado em mim o interesse nesse tipo de música. As escalas musicais do Oriente estão de certa forma impregnadas em minha mente. O baixo em Hunger é de extrema importância. E eu tive que me preocupar em criar uma sonoridade que combinasse com o baixo que usei nessa música, um Ibanez SR400.

Evolution Machine é uma faixa que se desenvolve a partir de uma linha de teclado. A facilidade de acesso a outros instrumentos e tecnologias ajuda você a se desenvolver como guitarrista?
Dave: 
Sem dúvida nenhuma! O surgimento de softwares como Pro Tools, Logic e tantos outros tornou muito mais fácil criar e inovar. É muito bom expandir os horizontes. Mas, ainda assim você tem que saber tocar. Ouço muitas produções grandiosas que estão claramente mascarando falta de talento.

O solo de Evolution Machine é muito bonito. Ele começa com aquele acento oriental de que falamos e se transforma em algo rápido e com muito uso de alavanca. Qual sua forma de criar um solo? Você planeja tudo ou prefere improvisar?
Dave: 
Um pouco de cada. Às vezes, começo a solar sem me preocupar com tom ou escalas, só para ver onde ele me levará. Depois de fazer isso algumas vezes, já tenho uma figura bem clara a respeito de como ele será. Nesse solo em especial eu usei um MXR Phase 90 com um digital delay da Boss e meu amplificador Hughes & Kettner Switchblade de 50 watts. Ligo tudo bem alto para conseguir um bom nível de distorção sem comprometer a definição.

Como seu próprio produtor, você é crítico em relação à sua performance?
Dave: 
Muito! Eu tenho um grau leve de TOC (N.T.: transtorno obsessivo compulsivo, um transtorno de ansiedade) e às vezes me pego regravando o mesmo trecho inúmeras vezes sem um motivo claro, sendo que eu já tinha feito tudo perfeito no primeiro take.

Lady é uma balada movida a teclado. Você compõe no teclado? E sua inspiração para fazer baladas também vem das bandas de Rock?
Dave: 
Um dos primeiros instrumentos que eu tentei tocar foi o piano. Senti-me muito à vontade com nele, mas não me considero um pianista. Em Lady, a primeira parte foi escrita na guitarra e depois transcrita para o piano – mas funcionaria se tivesse sido feita ao contrário, também. E eu definitivamente gosto de uma balada bem feita. Ironicamente, as de que mais gosto foram feitas por bandas pesadas. Normalmente, componho num M-Audio Key Studio, mas também sou fã dos equipamentos analógicos. Dentre os meus favoritos estão o Oberheim OBX e o Roland série Jupiter.

O solo de Lady impressiona. E o interessante é que ele não se perde em notas tocadas em alta velocidade, mas são apenas frases bem colocadas. Uma das críticas que faço aos guitarristas ‘shred’ é tentarem mostrar suas habilidades em todas as músicas – pouco importa se são temas rápidos ou lentos.
Dave:
 Eu não gosto do termo ‘shred’, soa como se fosse algo desnecessário e descartável. Um bom guitarrista nunca coloca seu ego à frente de tudo. E eu nem sei se esses guitarristas a que você se refere são rápidos mesmo. Eles precisam aprender com gente como Frank Marino ou Allan Holdsworth. Quando esses caras tocam você percebe o conteúdo e a musicalidade que possuem e não um monte de notas tocadas aleatoriamente.

Uma vez perguntei a Joe Satriani se técnica e criatividade podem caminhar juntas…
Dave: 
Uma boa técnica deve ser vir como uma ferramenta para você colocar sua criatividade para fora, mas muitas vezes ela é usada da forma errada. Mark Knopfler, por exemplo, consegue ser sublime fazendo o básico, enquanto um cara que usa toda a técnica do mundo muitas vezes não consegue o mesmo impacto. Eu sempre tentei criar um equilíbrio saudável entre as duas coisas. É legal ser rápido, mas é preciso ter substância, também.

Você gravou uma versão de Just What I Needed, do Cars, em Evolution Machine. Você é fã de Elliott Easton (N.T.: guitarrista da banda)?
Dave: 
Essa é uma faixa clássica do Rock americano. A linha de teclado é muito legal e eu sempre pensei que ficaria ótima se tocada na guitarra. Para gravá-la eu usei um amplificador Mesa Boogie Mark III no solo e meu Hughes & Kettner na base. Elliot Easton é muito subestimado, ele é um guitarrista seguro e muito melódico.

Já I Am The Sun é diferente. Tem um ótimo arranjo e é uma faixa orgânica, bem simples. Qual a inspiração para ela? Quem é a cantora que participa dela?
Dave:
 Eu já vinha brincando com esse riff há alguns anos. Minha intenção era realmente fazer algo simples, tanto em termos musicais como de letra – ela tem apenas nove palavras! Ela surgiu da minha paixão pelo Blues, apesar de não se parecer com um. Quem faz os backing vocals é Tali Dennerstein, uma vocalista que conheço já há um certo tempo. Nós nos divertimos muito gravando essa música.

As The World, por sua vez, é mais brutal. Sua voz está ótima nela! Quais suas influências como cantor?
Dave: 
Obrigado pelo elogio. Não sei muito bem quais seriam minhas influências nessa área. Ha muitos vocalistas que admiro, mas não sei se eles chegaram a me influenciar: Freddie Mercury, Steve Perry, Robert Plant, Axl Rose e Ronnie Van Zant são os mais óbvios, mas também gosto de Zach Dela Rocha, B Real e Sen Dog. Para gravar as vozes eu usei um Focusrite Voicemaster Pro para compressão e um microfone Shure SM58.

Você acompanha a geração atual de novos guitarristas? Eles são tão impactantes como os de gerações mais antigas?
Dave: 
Existem excelentes guitarristas em termos técnicos, mas nenhum deles pode se comparar àqueles que inovaram no passado. O que falta hoje em dia é criatividade, imaginação. Pegue Eddie Van Halen, por exemplo: tem gente que acha que ele é datado e desatualizado, o que é simplesmente ridículo! Sempre achei esse tipo de mentalidade muito idiota. O que as pessoas precisam entender é que se trata de um pioneiro, um gigante da música e ninguém pode ser melhor do que ele. Você pode ser diferente, talvez até igual a ele, mas nunca melhor! É que nem esses sujeitos que se acham melhores que Hendrix. Isso é completamente sem sentido! Eddie, Jimi e toda aquela turma de que eles faziam parte fizeram história, cada um no seu tempo. Eles uniram talento e destino de uma forma que ninguém é capaz de fazer igual.

Você está sempre se desafiando enquanto músico, procurando novas abordagens, texturas e sonoridades?
Dave: 
Eu tento ser melhor a cada dia através das minhas composições, principalmente. Você pode ter toda a técnica do mundo, mas se não sabe como usar isso para causar emoção nos outros, de nada serve. Não acho que precise praticar de um ponto de vista físico. É mais uma questão mental para mim hoje em dia. Em termos de texturas e sonoridades, eu me divirto muito experimentando coisas novas, principalmente com minha guitarra sintetizada Roland VG88. Foi assim, por exemplo, que eu cheguei ao som que você ouve em Liberate.

Você gosta de trabalhar com trios. Esse é o formato perfeito pra você?
Dave: 
Sempre achei os trios muito especiais, e adoro trabalhar nesse formato, principalmente agora que estou tocando e cantando. Além disso, qualquer coisa que eu inclua além de baixo e bateria vai ficar supérfluo.

Imagino então que você curta trios como Jimi Hendrix Experience, Cream, Police ou King’s X.
Dave: 
Hendrix era um espécie de força da natureza. O fato de ele ter lançado aqueles três discos de estúdio enquanto viveu é o testamento de um gênio. Cream é outra lenda, naturalmente, e eu sempre curti muito Police. Eles se assemelham ao Rush no sentido de ser formado por três músicos especiais. Já o King’s X é a mais subestimada de todas essas bandas. O som deles é maravilhoso! Doug Pinnick e Ty Tabor (N.T.: respectivamente, baixista e guitarrista da banda) estão entre os melhores músicos que já ouvi tocar

Para encerrar, quais seus planos no momento?
Dave: 
Estamos finalizando alguns vídeos para as músicas do novo disco, incluindo filmes promocionais para Hunger, Hold Your Fire e Evolution Machine. Também pretendemos fazer clipes para Lady e Liberate. Temos ainda muitas atividades nos canais sociais, como YouTube, Facebook, Twitter e no meu site (davesharman.com). Estou lançando algumas videoaulas, também. Além de tudo isso, estou com muita vontade de cair na estrada. Outra novidade é que pela primeira vez estou disposto a participar de projetos de outros artistas, então estou procurando alguns que me agradem. Evolution Machine conseguiu levar minha carreira a um ponto em que finalmente eu passei de instrumentista solo para guitarrista, cantor e compositor. Isso era o que eu sempre quis e pretendo manter.

Mais informações em http://www.davesharman.com/

 

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