Entrevistas

HELL

A ESTREIA APÓS TRÊS DÉCADAS

A banda Hell teve trajetória curta mas deixou um grande material escrito e que não chegou a ser gravado. Agora, quase trinta anos após sua criação, o Hell finalmente lança seu disco de estreia, Human Remains, pela Nucelar Blast. Formado em 1982 por Dave G. Halliday (vocais e guitarra), Kev Bower (guitarra), Tony Speakman (baixo) e Tim Bowler (bateria), o grupo voltou à ativa com David Bower (vocal) e o guitarrista e aclamado produtor de bandas de Heavy Metal Andy Sneap no lugar de Dave, que cometeu suicídio por inalação de gás carbônico em 1987. Andy, que foi aluno de guitarra de Dave, falou sobre o disco e sobre a trajetória do grupo.

Qual é exatamente a ligação que o Hell tem com o Metallica?
Andy Sneap: Imagino que você esteja se referindo ao fato de eles terem falado sobre gravar uma música do Paralex na época em que estavam escolhendo o repertório de The $5.98 E.P.: Garage Days Re-Revisited (1987). Lars Ulrich comentou isso em entrevistas. O Paralex (N.R.: banda que tinha na formação dois integrantes da formação original do Hell) lançou um EP em 1980 – e em vinil verde! E também participou da coletânea NWOBHM: ’79 Revisited (1990), que saiu por iniciativa de Lars e do jornalista britânico Geoff Barton. A ligação com o Metallica não vai além disso.

O Hell foi criado em 1982 e não muito tempo depois encerrou atividades. O que aconteceu para vocês se separarem tão rápido?
Andy: A banda assinou com a Mausoleum Records ali por volta de 1984 ou 1985 e em seguida eles quebraram… Em seguida, todos entraram num período negro: todo mundo quebrado, desiludido e desinteressado. Kev foi o primeiro a sair e em seu lugar entrou um dos alunos de guitarra de Dave, Shaun Kelly. Mas um ano depois a banda parou definitivamente e, infelizmente, Dave tirou a própria vida no início de 1987.

Como foi esse período após a morte dele?
Andy: Depois que ele morreu, cada um buscou seu próprio caminho. Kev e Tim desistiram da música. Tony continuou tocando em bandas locais. Eu encontrei Tim e Tony uns dez anos depois e eles, claro, sempre falavam sobre os velhos tempos. Tempos depois, conheci o filho de Kev, que é fã de Heavy Metal e de várias bandas que eu produzi. E aí surgiu essa ideia maluca de gravar o material que a banda tinha deixado. Nem esquentamos muito a respeito, foi como um encontro de velhos amigos em volta de algumas cervejas e com um disco para gravar nos momentos livres. Mas isso juntou a turma novamente e foi muito divertido. Acho que o resultado fala por ele mesmo.

David Bower, o novo vocalista, é bem teatral, tanto visualmente como em relação à entonação vocal.
Andy: Ele chegou a nós por intermédio de Kev, já que são irmãos. David é ator profissional, ele fez alguns trabalhos para a TV britânica e chegou a ficar uma temporada em cartaz em Londres com a peça Otelo, de Shakespeare. Mas no dia em que o ouvi fazendo uns backing vocals percebi que ele era a peça que faltava no nosso quebra-cabeças. Por ser irmão de Kev, já tinha visto a banda várias vezes, então sabia exatamente o que tinha que fazer.

Todas as músicas de Human Remains foram escritas pela formação original?
Andy: Sim, são todas dos anos 80. Fizemos algumas pequenas alterações nos arranjos para dar uma pequena modernizada, mas, fora isso, são rigorosamente originais.

Chega a ser surpreendente que vocês tenham se reunido e não escreveram uma música sequer.
Andy: Não, para esse disco não. O próximo queremos fazer com 50% de músicas antigas e 50% de novas. Há muito ainda por vir e temos grande planos para a banda. Como eu disse antes, Kev tinha desistido da música, mas agora ele a redescobriu e as ideias estão fluindo. Eu também já tenho um bocado de riffs e ideias, e David também é um guitarrista talentoso. Tony já mostrou uns dois temas para nós, então acho que já temos material até para um terceiro disco.

Você está na cena há tempo suficiente para saber o quanto a produção musical evoluiu. Como estavam as demos em termos de qualidade em relação ao que se exige hoje em dia?
Andy: Pra começar, elas eram mono. Não estou brincando, é verdade! E aí a gente entra no velho debate de análogo versus digital. O que eu tentei colocar nesse álbum foi o máximo de honestidade possível em relação ao material original. Procuramos dar uma abordagem ‘old school’ às músicas, sem emendas e coisas do tipo. As pessoas têm comentado que a produção deixou o disco mais orgânico do que as produções atuais, mas isso tem mais a ver com as composições em si e com a forma de tocar do que com a produção. Fiquei trabalhando no disco uns três anos, sempre que tinha uma folga me dedicava a ele. Quando tinha um final de semana livre, ligava pra turma e vinha todo mundo para o estúdio. No fim, não foi tão complicado. A parte mais difícil foi dizer ‘está pronto’ porque um disco nunca acaba…

Tem gente curtindo esse disco que nem era nascida quando o Hell gravou sua primeira demo, em 1982.
Andy: A reação das pessoas foi surpreendente. Nós sabíamos que era um bom álbum, mas não imaginávamos que as pessoas fossem gostar tanto dele assim. É sempre um pouco tenso quando você lança um disco, mas é muito satisfatório quando todas as opiniões sobre ele são positivas. Isso só confirma que fizemos a coisa certa. E quando isso acontece depois de todo o trabalho que dá, é uma sensação maravilhosa.

O quanto você acha que a NWOBHM influencia nas bandas de hoje?
Andy: 
Acho que a cena atual está um bocado saturada de bandas novas – e os selos têm grande culpa nisso. Tudo está muito previsível e é natural que as pessoas procurem algo das antigas do que riffs com guitarras de sete cordas. Nos anos 80, as pessoas realmente acreditavam no Heavy Metal, aquilo vinha do coração de quem fazia. Nunca vou lançar um disco se não estiver 100% satisfeito com ele. As bandas parecem muito apressadas hoje em dia e não acho que elas consigam se desenvolver assim.

É bom saber que você está tocando guitarra novamente e que em breve estará no palco com o Hell. Afinal, faz um bocado de tempo que sua outra banda, Sabbat, não se apresenta ou lança alguma coisa…
Andy: Na verdade, eu sempre fui guitarrista. A produção é uma espécie de ‘plano B’ que acabo funcionando. Tenho que admitir, ando muito entediado de ficar sentado o dia inteiro no meu estúdio. Então, estou me dando essa nova chance. Estou 100% envolvido nisso, é muito divertido. Pode até custar algum dinheiro e talvez tenha que deixar de fazer um ou dois discos, mas quer saber? Eu nem ligo. Pra mim, tocar é algo que não tem preço.

Site relacionado: www.hell-metal.com

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