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NOMAD CRÜE

LUGARES E CONTEXTOS INUSITADOS

Saudações, crewer! É com muita satisfação que estreio essa coluna no site da ROADIE CREW, não de hoje uma das publicações mais emblemáticas no Rock/Metal do Brasil e também de alhures. E é a estes alhures, outros lugares do e no Rock, que a “Nomad Crüe” será destinada, numa desterritorialização que pretende focar no inusitado e trazer informação, bom humor e reflexão ao caro leitor. Fora a homenagem ao Mötley Crüe, banda que rodou o mundo tocando, se divertindo e conhecendo diferentes pessoas e culturas (quem não curtiria tal experiência, com mais ou menos maquiagem?), proponho a retomada de ideias do também controverso Gilles Deleuze, pensador que cometeu suicídio em 1995 e que mantinha estreita relação com o Rock.

Além de grande fã, ele colaborou com a banda experimental Heldon e dizia que tentava viver e lecionar assim como Bob Dylan fazia shows, “like a rolling stone” – afinal, “pedras que rolam não criam limo”, como diria Muddy Waters, se desterritorializam. Assim, Deleuze foi vinculado a vários movimentos de resistência social, política e cultural, a exemplo de nosso amado (e nem sempre criticamente observado e praticado) Rock/Metal.

O singular autor, que é uma leitura interessante para aqueles que, como eu, não se contentam com a sociedade escrota em que vivem, também dizia que a criação é o ato máximo do pensamento, porém este só se potencializa com a relativa violência da novidade, que nos tira do lugar comum, da mesmice. Criar é resistir, e resistir é criar novas possibilidades de vida e arte. Mas o Rock em geral não anda tão estagnado, tão pouco rebelde? Rolemos, pois.

Pelas novas tecnologias, sobretudo a internet e suas redes sociais, podemos viajar sem sair do nosso canto físico, numa gigantesca teia mundial que nos aproxima e que também nos afasta. Portanto, o nomadismo é tanto geográfico quanto afetivo, criativo e musical, uma busca por aquilo que já existe, mas que a maioria da galera (ainda) não se dá conta, e pelo que está por vir. Pode-se dizer que o embrião da coluna, aliado à influência deleuziana em meu trabalho acadêmico sobre o Rock, surgiu com a sacada nos documentários de San Dunn: “Metal: A Headbanger’s Journey” (2005) e, sobretudo, “Global Metal” (2008). Dunn é antropólogo, cineasta e também baixista em alguns projetos; porém, antes de tudo, ele é um headbanger, um aficionado, ávido por expandir seu conhecimento sobre um tema vasto; eis o nosso caso, em parte.

Apesar de esclarecer fatores essenciais para o entendimento da gênese do Metal e de seu impacto sociocultural na globalização, Dunn deixou transparecer um lado menos crítico e mais expositivo. Talvez fosse essa a intenção, até para ser mais acessível. Sua obra tem sido oportuna não só para maior popularização e compreensão de um nicho, mas também para continuarmos a reflexão acerca dele.

Sendo assim, a “Nomad Crüe” irá buscar artistas, fatos e curiosidades do Rock/Metal em lugares e contextos inusitados, que acabam por se tornar “exóticos” justamente pelo nosso etnocentrismo, ou seja, quando tomamos uma cultura por referência e as outras soam como arremedos, gerando preconceitos a partir das diferenças. Focaremos em estilos, comportamentos, hábitos de consumo e conjunturas sociais entre local e global que também remetem à nossa própria realidade. Crewer, não estranhe se nas próximas comunas aparecerem Metal africano, Punk chinês, Gótico da Oceania, bangers cubanos nos EUA etc. Com o sincero desejo de desfazer fronteiras e ampliar horizontes culturais, despeço-me com um abraço e um até logo!

(*) Márcio Benevides, rocker e sociólogo.

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