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10 DISCOS PARA UM TEMPO DE ÓDIO (OU TRILHA SONORA PARA UM PASSEIO FILOSÓFICO)

Por Dimitri Brandi

Fui marcado em diversas postagens de amigos que me desafiaram a postar, a cada dia, um dos meus álbuns favoritos. Sou viciado nisso, fazer listas de álbuns, desde há muito tempo, desde quando fiquei fanático por metal e música em geral. Tenho uns quatro ou cinco álbuns de cabeceira, que sempre aparecem nessas listas. São aqueles que mais me marcaram durante a vida, não necessariamente os que mais ouvi. São aqueles que eu apresentaria para alguém que quisesse conhecer música, ou me conhecer melhor, por meio da música.

Desta vez resolvi fazer diferente. Sinto que mostrar minha opinião não tem qualquer serventia. O mundo está parecendo louco. O ódio, a agressividade, a preguiça de pensar e a intolerância estão muito presentes e evidentes. Isso não ocorre somente nas redes sociais, é uma ilusão ingênua achar que estas não refletem algum aspecto das personalidades e da sociedade. Ainda que possam não ser características essenciais, ou as mais importantes das pessoas, esses sentimentos negativos estão lá, de alguma forma, e aparecem nas manifestações e opiniões concretas.

Tristes opiniões. A filosofia já alertou há milênios para o perigo da ignorância, em que a opinião, fruto da vontade e da crendice, supera o conhecimento e a sabedoria. O estudo, a reflexão e a autocrítica são caminhos para a elevação mental, cultural e espiritual. A preguiça, a vontade de seguir um líder e se enquadrar na manada só produziram tragédias na história. O nazismo e o estalinismo foram as manifestações mais recentes. Mas não serão, infelizmente, as últimas, como o tem demonstrado o discurso de ódio crescente, a proliferação de notícias falsas, a idolatria a rótulos vazios, o culto à personalidade de seres vazios, falsos ou tóxicos.

Nossa principal batalha, hoje, é fazer o amor vencer o ódio. É mudar o mundo, mas também a nós mesmos.

Nesse sentido sinto que os discos que eu devo mencionar não são aqueles que mais me marcaram no passado. Ao contrário, aqueles que têm algo a me dizer sobre o futuro, que podem me ajudar a entender o presente e recuperar a esperança. Claro que são obras musicais que fazem parte da minha história, que eu aprecio e idolatro (no bom sentido). Eu não iria indicar porcaria, até porque a música, para ser inspiradora, tem que ser também inspirada, marcante e genial. E pesada.

Kreator – “Violent revolution”

Disco comunista de uma banda esquerdopata que quer destruir tudo o que a família e sociedade produziram de bom, já que o capitalismo deu certo e quem não sabe disso é porque ameaça o cidadão de bem. Até a capa é vermelha! Esses caras provavelmente querem transformar a Alemanha em Venezuela, já que o nazismo era de esquerda, a terra é plana e não houve ditadura, mas se ela voltar seria ótimo para matar todos os que querem implantar uma ditadura nazista em que não há liberdades nem respeito pela vida humana, afinal bandido bom é bandido morto.

Comecei o texto de propósito, destilando lugares comuns odiosos e falsidades absolutamente irritantes.

Esse disco é a obra-prima do thrash metal alemão. Tanto que o Kreator o copia e o repete a cada lançamento. A cada dois ou três anos eles lançam um novo “Violent Revolution”, mas nenhum supera o original. A volta da banda ao thrash, com uma sonoridade muito boa, fez deste o grande clássico do estilo nos anos 2000. Confesso que adoro os primeiros discos da banda, mas a gravação abafada, leve e suja me frustra um pouco. Adoraria ouvir o Pleasure to Kill com uma produção melhor, com o som do Violent Revolution.

Esse disco tem um defeito, que é a faixa de abertura. Adoro a música, mas ela soaria melhor no meio ou no final do disco. Quem foi o gênio que decidiu não abrir o disco com a pequena instrumental épica e arrepiante chamada “The Patriarch”, que faz a preparação perfeita para a faixa título? Tanto é assim que na turnê do álbum essa faixa era usada de introdução do show.

A sociedade falhou comigo. Eu vou dar o troco, pois falhei em tolerar a sociedade. A minha única saída, minha única esperança é uma revolução violenta. Essa é a ideia do refrão da faixa título. Nenhuma violência física real é necessária aqui, a agressividade musical basta. Além disso, podemos fazer uma revolução que seja violenta contra o mal, não contra as pessoas. Que destrua tudo que há de ruim violentamente, sem matar nem ferir ninguém. O oprimido não pode se tornar opressor. Não sei se é melhor ser servo no paraíso ou rei no inferno. Talvez sejam situações iguais.

Queensryche: “Operation: mindcrime”

O mais elogiado álbum conceitual de heavy metal. Figurinha carimbada nas listas de melhores de todos os tempos. Banda chata que só lançou esse disco que presta . Discordo, adoro os dois trabalhos seguintes também. Mas reconheço que em matéria de discos chatos poucos superam o Queensryche. Que, volta e meia, tenta voltar a essa obra-prima sem muito sucesso. Aliás, a continuação, que tem o mesmo nome, é a quintessência da chatice do metal pasteurizado dos anos 2000.

Esse disco é importante por um único motivo: ele é, musicalmente, aquilo que o livro “1984” tentou ser para a literatura. Digo “tentou” porque acho o livro uma merda em matéria de ficção científica. Os erros da distopia são muito graves para eu conseguir levar a história a sério. Mas como panfleto contra o totalitarismo ele está ótimo, cumpriu bem sua função. Muita gente refletiu e aprendeu sobre as mazelas de uma ditadura que anula o indivíduo por meio dessa história.

“Operation:Mindcrime” para mim é a trilha sonora perfeita para o livro. Nem me importo muito com a história do disco, com o drogado Nick, o “líder” Senhor X e a freira Mary. Se bem que o personagem da freira é genial, bem como a passagem em que a cantora Pamela Moore faz um dueto arrepiante com Geoff Tate. Esse cara é um dos melhores letristas e vocalistas que o metal já produziu, e nesse disco pelo menos a parte do gogó atinge seu ápice técnico.

Ouça “The Mission”, letra que não é dele, mas que me arrepia sempre que ouço. Eu achava que a minha missão iria salvar o mundo. Engano, ilusão. Fui apenas manipulado por um falso líder preocupado somente em saciar a própria sede de poder. Eu não tinha individualidade antes, me acabava nas drogas. Troquei o vício químico pela submissão à retórica, vazia e manipuladora, e aos devaneios enlouquecidos de um pastor de rebanho que prometia uma utopia.

Quando, na vida, deparar com um salvador, fuja dele. Cristo foi crucificado porque era perigoso para o sistema. Se fosse um líder manipulador das massas, teria sido ungido como novo Herodes, se transformado em imperador-deus, fuhrer ou “mito”. Fanatismo é tudo igual, com a vantagem de que usar drogas mata o viciado, e não pessoas inocentes transformadas em inimigos.

Death: “Spiritual healing”

O disco que eu menos gosto da banda que eu mais gosto. Mas indicar outro seria sacanagem. Por exemplo, a sonoridade e as letras de um “Individual Thought Patterns” são tão complicadas e inacessíveis que demandam um certo treinamento, que leva tempo. Podemos começar com este. Aliás, só a capa basta para mostrar a importância deste disco e do pensamento de Chuck Schuldiner para o mundo atual.

Infelizmente, parece que absorver essa obra-prima ou qualquer outra do Death não é suficiente. Já vi gente que toca “The Philosopher”, em que ouvimos frases como “a verdade não está nas ideias dos outros”, mas apoia um certo candidato demagogo, racista e misógino, cujo nome não se deve mencionar.

Eu já escrevi milhões de vezes sobre minha admiração pelo Chuck e sua obra. Não vou me repetir. Só recomendo que você o ouça. Mas ouvir de verdade. Preste atenção nos caminhos que a música percorre. Principalmente, nas palavras que ele canta. Ok, ele não “canta” exatamente, ele urra. Mas como não admirar um sujeito que escreveu, em 1994, que “a privacidade e a intimidade nada mais serão do que lembranças macabras”? Preste atenção nos urros, desprovidos de ódio mas embebidos de filosofia da mais alta qualidade, frases talvez universais, embora eu seja cético com relação a tudo o que se propõe universal. Acredito mais na eterna mudança. Nesse ponto a sonoridade dá uma aula, não tem monotonia em momento algum, não há repetição absolutamente certeira, nada soa enjoativo, previsível ou desnecessário.

Sua jornada para a cura espiritual pode começar por esse disco.

Dorsal Atlântica: “Musical guide for the Stellium”

Infelizmente chegou um ponto em que as bandas brasileiras de metal pararam de cantar em português. Isso teve uma consequência nefasta que só percebo agora: permitiu que o fã de metal não pensasse, pois não prestava atenção nas mensagens, somente na sonoridade.

O Dorsal (ou melhor, “a Dorsal”) não escapou disso. Este foi o segundo trabalho deles em inglês. Não gosto muito da gravação, me soa leve e comercial. Mas aqui estão as composições mais inspiradas, técnicas e intrincadas da banda. Em especial, aquela que considero a melhor música de metal composta no Brasil, intitulada “Warrior”: “a luta te deu a vida”.

“Luta”, aqui, obviamente não significa agressão física. Está mais para luta de classes, lutar pelo que se acreditar, não desistir face às adversidades. Isso que nos mantém vivos. Quem parou de lutar já está morto.

Que eu me lembre, “stellium” era um alinhamento planetário que ocorreu nos anos 1990. Uma oportunidade para a humanidade se reinventar. A capa do disco traz alguma divindade indiana, mostrando a ligação da banda, na época com algum misticismo oriental. Infelizmente os astros não governam a vida na terra. Parece que perdemos a oportunidade. Os anos 1990 nos trouxeram, em vez da prometida era de elevação espiritual, a exacerbação do egoísmo mesquinho, do consumismo, do desprezo com o semelhante. Chame de “neoliberalismo” ou do que quiser.

Sepultura: “Chaos A.D.”

É difícil de acreditar que essa obra prima do metal foi feita por uma banda brasileira. “Nós, que não somos como os outros”. Eles poderiam ter sido a maior banda de metal de todos os tempos se não tivessem brigado daquele jeito ridículo uns três anos depois. Mas deixarão, para sempre, uma trinca de discos fundamentais e revolucionários.

Esse disco tem o melhor riff de duas notas da história do metal (Refuse/resist). Tem a segunda melhor introdução de bateria de todos os tempos (Territory, que só perde pra Painkiller porque Painkiller é absolutamente insuperável), tem letra contando do massacre do Carandiru, tem música baseada nos índios brasileiros, todas as letras são críticas ao contexto político mundial, ao poder da mídia, à manipulação das massas.

Tem cover dos Titãs, que cantava “polícia para quem precisa” no mesmo disco que tinha “homem primata: capitalismo selvagem” e do New Model Army, aquela banda que dizia que a Inglaterra era o quinquagésimo-primeiro estado dos EUA. (Orgulho de ter usado o numeral “quinquagésimo-primeiro” num texto, pela primeira vez na vida adulta).

Isso tudo em 1994, era só uma crítica, abstrata, que soava teórica, engajada mas distante. Isso na época.Hoje ela  é urgente e amedrontadora. Essas ameaças de caos estão batendo na nossa porta com uma força maior do que a introdução de bateria do Igor Cavalera. O clima está mais pesado que o timbre de guitarra de “Slave New World”. Meu coração bate de ansiedade mais rápido que o de Zion no útero da mãe. A situação é mais confusa, incerta e caótica do que os solos de alavanca da guitarra de Andreas Kisser. Parecemos irrelevantes, obscuros e pouco importantes.

Bathory: “Under the Sign of the Black mark”

Quorton morreu há uns quinze anos, e jamais foi superado. Ele era um Chuck Schuldiner do Black Metal europeu. Foi um gênio, uma pérola num estilo que sempre teve potencial para se tornar um celeiro de retardados. Desde aqueles que queimavam igrejas, matavam homossexuais e coleguinhas de banda, passando pelos tr00s radicais que pintam a cara mas não usavam bermuda, até chegar nos neonazistas. Não julgue o estilo por eles. O líder do Bathory era completamente diferente, especial e elevado espiritualmente. Um artista completo, excelente compositor, guitarrista, letrista e vocalista. Capaz de emocionar com sons limpos e suaves da mesma forma que te arrepia a adrenalina com riffs toscos brutais e urros demoníacos. Desconfio que ele gravava todos os instrumentos e mentia sobre a existência de uma formação real de uma banda. Uma boa estratégia para não precisar fazer shows.

Faça assim: eu indiquei este, mas pode ouvir qualquer disco do Bathory. Não há nenhum ruim, embora também não haja dois iguais. O cara sempre transitou pela eterna mudança de estilos, sem se reprimir ou se prender a limites estéticos. Tem black metal tosqueira, death metal tradicional, thrash metal bem trabalhado, baladas de violão, orquestrações clássicas, tem aquilo que se considerou chamar de “Viking Metal”. Tem sonoridade para qualquer gosto, sempre acompanhada de letras profundas, filosóficas e que fazem pensar. Até quando ele fala do capeta é em alto nível, satanismo filosófico, ético e cultural, de quem sabe que a figura do cramulhão de chifres é tão real quanto a do bicho papão, do “livre mercado”, da invasão alienígena e de outros mitos criados ao longo da história para manipular o medo.

Fazer pensar e emocionar são as maiores funções da arte, e a maior realização que um artista pode atingir. Sucesso verdadeiro é isso. O comercial não conta. Número de likes, de álbums vendidos e outras cifras só servem para enriquecer a indústria. A arte tem que enriquecer quem a experimenta. Ouvindo um disco do Bathory fico mais rico. Pobre é quem tem somente dinheiro.

Rush: “2112”

Imagine um mundo em que não há indivíduos. Em que a coletividade decide tudo na sua vida. As pessoas sequer tem nomes próprios. A língua foi alterada para que não existisse outro pronome senão “nós”. Nesse mundo não há música, pois essa forma de arte é uma expressão individual.

Sempre lembrada como uma metáfora distópica contra o coletivismo, essa fábula foi inspirada na obra de Ayn Rand, autora ultra liberal que parece estar na moda, embora pouco lida, compreendida e levada a sério. Não é meu disco favorito do Rush, mas é o mais importante para este momento.

Isto porque, embora vários mirem suas armas no coletivismo, achando que atingirão o “comunismo”, a verdade é que o indivíduo está em baixa em todos os discursos ideológicos. A dominação do consumo transforma tudo em mercadoria, impõe gostos e padrões de comportamento que não são decididos pela individualidade de cada um, mas por um mercado onipotente e onisciente, que controla sua mentalidade, seus desejos, suas vontades, suas preferências: sexuais, alimentares e estéticas. Não há espaço para indivíduos reais num mundo desses, em que o padrão é a massa bovina de consumidores de padrões: comida padronizada, ideias padronizadas, prazeres padronizados. Tudo falso como o aroma artificial de morango.

Por fim, também não há liberdade. Esses mesmos que odeiam as ditaduras coletivistas do outro lado adorariam uma ditadura coletivista do lado de cá. Repelem a ditadura “deles” mas amariam serem ditatorialmente governados por um de “nós”. A luta “nós versus eles” esconde, na verdade, um desprezo pelo “eu”, com todas as implicações psicológicas, eróticas e políticas que se possa imaginar. As liberdades individuais, das quais a mais importante é a de pensamento, vão todas pro lixo. Liberdade de expressão, religiosa, de voto, de associação, de trabalho, de organização, tudo isso perde sentido num mundo que se recusa a realmente valorizar o indivíduo. Paradoxo causado pela recusa do pensar, em que o egoísmo mesquinho do self-umbigão comanda aqueles que abaixam a cabeça esperando a degola na fila do abatedouro.

Depeche Mode: “Violator”

Esse disco tem uma flor sangrando na capa e mais metáforas belas do que se encontra usualmente numa peça de Shakespeare. Tudo o que me importa está nos meus próprios braços. Num abraço. Seja seu próprio Jesus, ou tenha um Jesus de bolso, personalíssimo, que realmente te ouça. A fé é para ser tocada. Não dê ouvidos à polícia da verdade. Todo mundo sabe que eu iria fazer merda na minha obsessão por ser perfeito. Deixe eu te mostrar o mundo visto pelos meus olhos, basta se entregar aos sentimentos. Basta sentir.

Toda essa poesia foi escrita de cara limpa, sem drogas. Infelizmente, a poesia é como a verdade: ninguém gosta. Não vicia, não custa dinheiro, não dá dinheiro, não dá pra esfregar na cara de ninguém, nem ostentar.

Não é metal, mas foda-se. Eu não disse que só escuto metal. Esse disco é das melhores coisas que cabem numa caixa de plástico ou num saco de vinil. Pode ouvir no streaming também. Se não mudar sua vida, não sei mais o que mudaria.

Iron Maiden: “Fear of the dark”

Durante muito tempo considerei este o pior álbum da minha banda favorita, o Iron Maiden. De uma forma ou de outra, deixou de ser. Não só porque eles lançaram coisas medonhas depois (o melhor lançamento deles em décadas foi a cerveja), mas, sobretudo, porque aprendi a admirar determinadas músicas do disco de uma maneira diferente. Ok, a produção me soa muito leve e comercial até hoje, e o disco contém algumas composições verdadeiramente horrendas que ficaram ainda piores com o passar do tempo.

Mas estão lá algumas obras primas, e talvez em nenhum outro álbum da banda as letras sejam tão certeiras e relevantes. O disco já abre com uma paulada impressionante, talvez a música mais brutal da carreira do grupo: “Be Quick of be Dead”, com uma letra ácida que critica o capital financeiro, justamente o maior poder econômico da atualidade. Se você acha que quem manda no Brasil são políticos ou empresários, achou errado. Quem manda no país e no mundo são os bancos, os conglomerados financistas, os fundos de investimento e de pensão, que não produzem porra nenhuma mas lucram em cima do trabalho alheio.

Outras faixas dignas de nota vão aparecendo em meio a algumas porcarias descartáveis. “Afraid to Shoot Strangers“ começa chata e sem graça, mas depois empolga com belíssimas melodias de guitarra. A letra trata da desumanização causada pela guerra, algo que ficou cada dia mais impressionante, com destruição à distância causada por máquinas, bombas e drones. O inimigo deixou de ser um ser humano, passou a mera estatística.

“Wasting Love” foi alvo de pesadas críticas na época. O discurso de ódio dos metaleiros radicais não aceitava que uma música pudesse ter “amor” no título ou falar desse sentimento, o mais belo e importante da nossa espécie. Exatamente o que nos faz humano, nos mantém vivos em sociedade e permite que haja ética, beleza, felicidade. A letra, entretanto, não tem nada de otimista. A crítica aqui é certeira, contra a mercantilização dos sentimentos, do consumo fácil de relacionamentos. Não sei se a banda leu Zygmunt Bauman, nem mesmo o que veio antes, se o livro ou a canção. Mas ambos expressam a ideia de amor líquido. Já diriam Marx e Nelson Rodrigues: “o dinheiro compra tudo, até amor sincero”. Os relacionamentos viraram mercado, para o qual já temos softwares, catálogos, consultorias e marketing pessoal.

Outras faixas tratam do medo, da manipulação desse sentimento, da perda da individualidade. Antes da música mais tocada e cantada da história recente da banda, a hoje chata porque repetida à exaustão faixa título, vem uma pérola. Uma faixa que ninguém cita, nem quando fala em lado B. Exatamente a mais importante para o momento atual: “Weekend Warrior”, que trata dos hooligans. Da violência do torcedor fanático de futebol, capaz de matar alguém que ele sequer conhece porque usa cores diferentes das suas. Ele não é um monstro; é um pai de família, “cidadão de bem”, tal como eu e você. O mal não precisa de monstros, é algo demasiado humano, já alertavam Nietzsche e Hannah Arendt. Esse tipo de violência gratuita é a tônica na nossa sociedade, que adora um linchamento, uma batalha campal, uma gangue, uma treta. Substituir a violência esportiva pela chacina dos rivais políticos é o primeiro (ou último?) passo antes de uma guerra civil em que não haverá vencedores.

Espero que não cheguemos nesse ponto, meu Brasil. Ouçam mais Iron Maiden e menos áudios do whatsapp.

Orphaned Land: “All is One”

Sempre digo que essa é a banda mais relevante do metal da atualidade. São de Israel; tem gente de todas as etnias e religiões na formação. O vocalista já foi anti-palestino fanático, daqueles que veem em todo árabe um terrorista e consideram a simples existência desse povo uma ameaça. Mudou. Da água para o vinho, tal como outro judeu cabeludo e barbudo fez há dois mil anos, na mesma região.

Eu poderia indicar qualquer disco deles, pois todos são igualmente geniais no aspecto musical e nas letras inspiradíssimas em hebraico, árabe e inglês. Escolhi esse porque ele tem uma faixa muito bonitinha: “Brother”, que prega que todos somos irmãos, independente de raça, credo, orientação sexual, etnia, cor da pele, time de futebol, preferência política, gosto musical, etc. Essa mensagem é atemporal (vou evitar o universal desta vez) e também não tem dono nem geografia. Nossa lealdade à humanidade é um dos valores mais importantes, belos e, infelizmente, esquecidos e menosprezados.

Eu te amo porque somos humanos, porque compartilhamos a mesma existência. Por isso você merece todo o meu respeito. Os maiores sábios que já existiram foram os que, a cada época, renovaram essa mensagem. Já os maiores estúpidos são aqueles que não a escutam, mesmo quando a ouvem. São os que a descumprem porque querem. Que escolhem ignorá-la, mesmo quando podem, quando mais se faz necessário, mesmo quando ela está estampada em suas camisetas ou no livro que carregam embaixo do sovaco.

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