Live EvilRoadie News

ALCEST – Rio de Janeiro/RJ, 1 de julho de 2018

Teatro Odisseia – Rio de Janeiro/RJ

Por: Leonardo Melo

O show já se aproximava de sua reta final. A décima (e antepenúltima) música da noite, com seus oito e tantos minutos de duração, já passava da metade. Sob luzes azuis, o vocalista e guitarrista cabeludo, esguio e com certo ar tímido atraía para si as atenções do dedicado público, que acompanhava, contemplativo, a delicada e bela melodia tirada do instrumento pelo cidadão no centro do palco. A referida música é “Sur L’Océan Couleur de Fer”. O cara em questão é Stéphane Paut, mais conhecido como Neige (neve em francês). E o show é do grupo liderado por ele, o Alcest, que encerrou domingo (1º de julho), no Teatro Odisseia, no Rio de Janeiro, sua nova turnê pela América Latina.

Depois de passar por México, Colômbia, Argentina e Chile, a banda francesa desembarcou no Brasil pela terceira vez, agora para performances solo (nas duas anteriores, tocou nas edições de 2014 e 2016 do Overload Music Fest). Com uma sonoridade bem peculiar (e, por isso, não muito fácil de rotular ou definir), incorporando ao longo da carreira (iniciada em 2000, como um projeto solo de Neige) elementos que trafegam pelo black metal, post-rock, dream pop e shoegaze, o Alcest traz também o baterista Winterhalter (cujo nome real é Jean Deflandre) na formação. Ao vivo, a dupla vira um quarteto, com as adesões de outros dois músicos franceses: Zero (Pierre Corson) na guitarra e backing vocal, e Indria Saray no baixo.

O prato principal do atual giro da banda, que no Brasil ainda incluiu Florianópolis e São Paulo no roteiro, é a execução na íntegra do seu quinto e mais recente trabalho de estúdio, “Kodama”, lançado há quase dois anos. É em dedicação a tal disco que toda a primeira metade do show (de pouco mais de uma hora e meia de duração) se desenrola. Assim, as seis músicas presentes no álbum são tocadas na mesma ordem em que aparecem nele. Logo na abertura, a faixa-título com mais de nove minutos e longas partes instrumentais (algo comum no repertório do grupo) foi muito bem recebida pela plateia, que compareceu em bom número ao Teatro Odisseia.

No palco, que trazia ao fundo um pano negro com o logotipo da banda, a caprichada iluminação contribuiu ainda mais para a natureza climática do espetáculo, com um jogo de luzes que mudavam de cor a cada música. Até mesmo quando só havia uma proposital penumbra. Interessante também notar como o público conhecia as letras, sobretudo, por uma razão: todas são cantadas em francês. Algo, de fato, raro no universo do rock. Em resposta à entusiasmada participação que vinha da pista, Neige frequentemente agradecia, seja com as mãos espalmadas sobre o peito, seja fazendo o símbolo do coração. Alguns fãs chegaram, vez ou outra, a berrar um “Mon amour” e um “Je t’aime” dirigidos ao vocalista.

Com riffs envolventes que nos levam a uma viagem até as profundezas da alma, “Eclosion” veio na sequência, marcada pela performance de Neige nos vocais ora melodiosos, ora rasgados. Ao seu fim, sob gritos e intensos aplausos, um sorridente Neige fez sinal de positivo para o público, retribuindo a calorosa recepção e, em inglês, disse: “Nós somos o Alcest, da França”, seguido por um “obrigado” em português. Dando continuidade às faixas do álbum “Kodama”, logo depois veio “Je Suis d’Ailleurs”, que igualmente trouxe em destaque a variação vocal de Neige, aliada à constante mudança rítmica e ao emprego da técnica dos blast beats pelo preciso baterista Winterhalter.

Antes da cadenciada “Untouched”, o frontman mais uma vez se dirigiu ao público, agora para lembrar que o Alcest retornava ao Rio de Janeiro depois de quatro anos (a banda se apresentou na edição carioca do Overload Music Fest, em 2014), e que era “ótimo estar de volta” à cidade. “Oiseaux de Proie”, cuja introdução foi acompanhada com palmas e punhos erguidos, alterna momentos mais direcionados ao black metal (incluindo novamente os vocais guturais e blast beats) e trechos “atmosféricos”, mais leves. “Onyx”, derradeiro número de “Kodama” e inteiramente instrumental, ecoou nas caixas de som em versão pré-gravada, finalizando a primeira parte da apresentação, enquanto os músicos faziam pequenos ajustes nas afinações e nos pedais de efeitos.

Sem intervalo entre os sets, o segundo bloco do show, por assim dizer, reuniu uma seleção de clássicos do grupo, iniciada pela faixa-título do trabalho de estreia, “Souvenirs d’un Autre Monde” (2007). Após os tradicionais gritos de “Olê, olê, olê, olê… Alcest, Alcest”, pelo público, o vocalista anunciou a também bastante ovacionada “Percées de Lumière”, do elogiado segundo disco, “Écailles de Lune” (2010). Outro ponto alto foi “Autre Temps”, do terceiro álbum, “Les Voyages de l’Âme” (2012), com os fãs seguindo nas palmas o ritmo da batida tribal de Winterhalter. Além, é claro, da linda “Sur l’Océan Couleur de Fer”, a faixa de “Écailles de Lune”  já mencionada no início do texto.

Beirando nove minutos de duração, “Là où Naissent les Couleurs Nouvelles”, do disco “Les Voyages de l’Âme”, foi mais uma daquelas iniciadas com punhos no ar, gritos e o inevitável bater cabeça. Sem falar que a canção é mais uma repleta de movimentos variados, entre passagens suaves, etéreas, e outras no extremo oposto, mais pesadas, agressivas. Após uma breve saída do palco, a banda voltou para o bis, arrematando o show com a épica “Délivrance”, ultima música do seu quarto álbum, “Shelter” (2014), que possui duração superior a dez minutos na versão de estúdio. Por fim, simplesmente afirmar que os fãs brasileiros já aguardam um novo retorno do Alcest ao país seria não fugir do óbvio. Então, como dito em bom francês, “à la prochaine”.

Setlist

 

  1. Kodama
  2. Eclosion
  3. Je Suis d’Ailleurs
  4. Untouched
  5. Oiseaux de Proie
  6. Onyx
  7. Souvenirs d’un Autre Monde
  8. Percées de Lumière
  9. Autre Temps
  10. Sur l’Océan Couleur de Fer
  11. Là où Naissent les Couleurs Nouvelles

Bis

  1. Délivrance

Recomendamos Para Você

Close