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ANGRA – Rio de Janeiro/RJ, 31 de maio de 2018

Circo Voador, Rio de Janeiro/RJ

Sabe aquela noite que valeu a pena mesmo que nem tudo tenha dado certo? Na verdade, que valeu a pena mesmo que algo tenha dado muito errado. É possível resumir assim a primeira passagem do Angra pelo Rio de Janeiro na turnê para promover o novo álbum, “ØMNI” (2018). Sim, primeira, porque falta agora uma apresentação sem… Bem, vamos por partes. O Circo Voador já estava lindamente abarrotado de gente – acredite, feriado no Rio de Janeiro, ainda mais prolongado, não significa casa cheia em shows – quando Fabio Lione (vocal), Rafael Bittencourt e Marcelo Barbosa (guitarras), Felipe Andreoli (baixo) e Bruno Valverde (bateria) mandaram ver “Nothing to Say”, o início de um “set list especial e variado”, como Lione anunciaria pouco depois. Desnecessário dizer que a lona entrou em ebulição, afinal, é um dos maiores clássicos da banda – e é de “Holy Land” (1996), um dos trabalhos emblemáticos do metal brasileiro.

E aí veio a nova “Travelers of Time”, que todos sabiam cantar, sem contar a turma que abriu a primeira roda da noite, para alegria de Bittencourt. “Angels and Demons” surgiu em seguida e, apesar de já na estar na hora de algum outro exemplar de “Temple of Shadows” (2004) entrar no repertório, mostrou por que é uma das favoritas dos fãs. De “Secret Garden” (2014), “Newborn Me” e aquela seção instrumental espetacular no meio da canção soaram arrasadoras e foram muito bem acompanhadas pelo público, que continuou respondendo maravilhosamente bem ao passado – com “Time”, uma joia à la Queensrÿche presente em “Angels Cry” (1993) – e ao presente do Angra, porque “Light of Transcendence” foi a prova definitiva de que “ØMNI” caiu em suas graças. Não à toa, o coro com o nome da banda ecoou forte na casa, e o set list especial mostrava que o caminho seria um pouco de cada álbum – à exceção de “Aqua” (2010), com boa dose de razão.

Com Bittencourt substituindo sozinho os corais do início, “Running Alone”, de “Rebirth” (2001), foi uma agradável surpresa, apesar de a expectativa por “Acid Rain”, originalmente no set, ter sido frustrada. Um momento de calmaria com a bela “Storm of Emotions” e um momento de “eu já sabia!” com “Insania”, porque estava na cara que seu refrão iria pegar fácil, fácil. Rolou piada com a falta de gasolina, “especialmente no Rio de Janeiro”, na hora de Bittencourt agradecer a todos por terem ido ao show; teve solo de bateria – curto, felizmente; e houve problemas. Lione, que desde antes vinha sofrendo com problemas técnicos, não escondeu sua irritação em “Black Widow’s Web”, uma das mais aguardadas da noite. Daí para frente, a situação só piorou. Fosse o microfone, fosse o fone/monitor ‘in ear’ de retorno, a situação fez com que Lione ficasse cada vez mais puto – mas muito puto – com o técnico da mesa de som lateral.

Nem mesmo um vocalista da excelência de Lione consegue acertar o tom da música quando não consegue ouvir o que está acontecendo, então imagine tendo de fazer também as partes de Alissa White-Gluz – Bittencourt assumiu os vocais gravados pela Sandy. Mas o show tinha de continuar, apesar de te rolado uma esfriada no clima em “Upper Levels” – uma pena, porque aquele trecho instrumental ‘mezzo’ Kansas, ‘mezzo’ Rush merecia ovação – e em “ØMNI – Silence Inside”, a ponto de Lione inflar o público para tirá-lo de uma apatia que havia evaporado durante uma baita versão de “Z.I.T.O.” com Bruno Sá (Geoff Tate) na flauta. A ótima “Ego Painted Grey”, de “Aurora Consurgens” (2006), quase foi esquecida pelo vocalista, que voltou a sofrer com microfone/retorno em “Lisbon” (tome esporro no técnico, diga-se) e, ao fim do maior clássico de “Fireworks” (1998), atirou o pedestal no chão.

O público? Ciente de que algo estava errado, fez a sua parte. Voltou ao estado normal de espírito em “Lisbon” e gritou com vontade o nome de Lione depois da excepcional “Magic Mirror”. Uma recompensa e um merecido reconhecimento ao vocalista que, com nova falha no microfone logo no início da música, transformou a raiva numa interpretação matadora junto ao instrumental técnica e criativamente impecável conduzido por Andreoli, Barbosa, Bittencourt e Valverde (entenda-se: cantou para cacete). Uma deixa providencial para o bis que começou com Bittencourt numa versão voz e violão de “Reaching Horizons”. Melhor, uma versão vozes e violão, porque foi bonito ver e ouvir os fãs cantarem sozinhos boa parte da “primeira música que o Angra compôs”, como lembrou o guitarrista, hoje o único integrante da formação original.

“Este é o Angra de hoje, o Angra do futuro, o Angra do ‘ØMNI’”, disse Bittencourt, mandando um “obrigado a todos os ex-integrantes da banda” por terem ajudado a construir uma história de 28 anos, praticamente. E na apresentação da banda de hoje e do futuro, justiça feita a Lione, o mais aplaudido. Ele foi novamente prejudicado em “Rebirth”, uma vez que o microfone mal funcionou, mas contou com o apoio dos fãs, que cantaram um clássico da segunda fase do Angra que muito bem se aplica à nova era – com trocadilho – do grupo tendo o italiano nos vocais.

Antes de “Reaching Horizons”, Bittencourt mencionou as rodas abertas na pista ao longo da noite: “Vontade de pular aí”. Promessa cumprida no medley de “Angels Cry” com “Nova Era”, que transformou o Circo num pandemônio. Por um instante parecia que o guitarrista havia largado o instrumento porque havia algum problema, mas não. Foi mesmo para se atirar na plateia e ser devolvido ao palco depois de uma breve seção de ‘crowd surfing’. Definitivamente, foi a imagem de um noite que valeu a pena, a imagem de uma banda que, apesar dos problemas, felizmente insiste em se renovar e se fortalecer. E que a noite tenha sido realmente apenas a primeira no ciclo de divulgação de “ØMNI”, para fazer com que aquela quinta-feira seja lembrada com um ensaio de luxo.

Nota de rodapé: a abertura coube ao Maieuttica, formado por Allan Sampaio e Frank Lima (vocais), Rubens Junior e Lucas Rodrigues (guitarras), Bruno Pinho (baixo) e Vitor Arante (bateria). Promovendo seu segundo disco, “Hiatus: Ausência” (2018), o sexteto carioca apresentou um metalcore que pode agradar em cheio a ouvidos menos exigentes. Se o estilo se popularizou de tal forma que o sentimento de déjà vu é inevitável, a banda também não ajuda com seu som genérico. Imagine o Linkin Park resolvendo virar uma banda de heavy metal com algumas pitadas de Faith No More (muito por causa de alguns trejeitos vocais de Lima, responsável pelas partes extremas/guturais).

É isso o que se ouviu em músicas como “Brame”, “Hidra”, “Além da Lei” e “O Paciente: Cárcere” – que contou até com a participação da modelo, dançarina e coreógrafa Thalita Ferreira –, somado a uma arrogância juvenil em algumas declarações de Lima, como “Nós somos o Maieuttica. Sim, é um nome difícil de falar” e “Quem não fugiu das aulas da filosofia sabe o que significa”. Acredite, Maieuttica não é um nome difícil de falar. Difícil é decifrar alguns logos de bandas de black metal. E imagino que, assim como o vocalista, aqueles que se formaram em filosofia ou que são da área de humanas em geral lembrem tudo o que aprenderam nas aulas de matemática, geometria, física, química…

Set list

  1. Nothing to Say
  2. Travelers of Time
  3. Angels and Demons
  4. Newborn Me
  5. Time
  6. Light of Transcendence
  7. Running Alone
  8. Storm of Emotions
  9. Insania
  10. Bruno Valverde Solo
  11. Black Widow’s Web
  12. Upper Levels
  13. Z.I.T.O.
  14. ØMNI – Silence Inside
  15. Ego Painted Grey
  16. Lisbon
  17. Magic Mirror

Bis

  1. Reaching Horizons
  2. Rebirth
  3. Carry on / Nova Era

 

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