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ARMORED SAINT – São Paulo/SP, 03 de junho de 2018

Fabrique Club - São Paulo/SP

No Brasil, uma das melhores notícias do ano em termos de heavy metal foi a confirmação da tão aguardada estreia do Armored Saint em nosso território. O grupo americano foi formado no longínquo ano de 1982 na efervescente Los Angeles, e por mais que não tenha feito parte das bandas de thrash metal e nem da cena glam daquela época, era notório naquele alvoroçado circuito e também conquistou muitos seguidores mundo afora. Mas os anos foram passando e parecia que o Armored jamais passaria por aqui, até que, numa cartada de mestre, a produtora Abigail Records tomou as rédeas e se incumbiu de satisfazer a vontade dos fãs brasileiros. Pena que apenas uma data tenha sido marcada no país, então os únicos felizardos foram os headbangers paulistanos. Um dos grandes atrativos para não perder esse show era o fato de que o Armored Saint viria com quase toda a sua formação original, ou seja, John Bush (vocal), os irmãos Phil (guitarra) e Gonzo Sandoval (bateria), Joey Vera (baixo – Fates Warning) e o guitarrista Jeff Duncan (DC4, ex-Odin), que entrou em 1989 no lugar de Dave Prichard, diagnosticado com leucemia e falecido no ano seguinte. Exceto para Bush e Vera, que já haviam tocado por aqui quando integravam o Anthrax, o Brasil era, de fato, novidade para Duncan, Phil e Gonzo. A banda havia chegado de Buenos Aires (ARG), onde tocou na noite anterior, e antes de subir ao palco do Fabrique Club – casa que fica ao lado da já tradicional Clash Club -, recebeu alguns afortunados para um ‘meet and greet’.

Enquanto isso, o restante do público – incluindo o lendário vocalista inglês Steve Grimmett (Grim Reaper), que retornava ao Brasil -, conferiu o show do veterano Hellish War, que foi convidado pela própria Abigail Records como ‘opening act’ para o Armored Saint. O grupo oriundo de Campinas (SP), que está na estrada há mais de 20 anos e tem em seu currículo shows realizados no exterior – o que em 2010 resultou no álbum ao vivo “Live in Germany”, obviamente gravado na Alemanha -, preparou um repertório formado por pares de músicas de todos os seus três álbuns de estúdio: “Defender of Metal” (2001), “Heroes of Tomorrow” (2008) e “Keep it Hellish” (2013). E foi com uma dobradinha desse seu mais recente trabalho, ou seja, a própria “Keep it Hellish” e também “The Challenge”, que o grupo abriu a noite. Sob um som altíssimo, expandido devido a não lotação da casa, o público presente prestigiou o heavy metal tradicional e veloz do Hellish War, que é altamente influenciado por lendas como Judas Priest, Iron Maiden e Grave Digger.

Desfalcados do parceiro guitarrista Daniel Job, os afiados Bil Martins (vocal), Vulcano (guitarra), JR (baixo) e Daniel Person (bateria) deram conta do recado e mostraram entrosamento, mesmo sem uma peça. A paixão deles pelo heavy metal estava escancarada no título das músicas “Defender of Metal”, “Metal Forever” e “We Are Living for the Metal”. A primeira delas foi dedicada pelo competente vocalista ao público e em exclusivo ao próprio Grimmett, o qual Martins disse ser um dos heróis de sua banda. A música começou com um breve solo de Vulcano, guitarrista que também integra a banda do ex-Judas Priest, Iced Earth, Yngwie Malmsteen’s Rising Force, Beyond Fear, Charred Walls of the Damned, Hail e Winter’s Bane, Tim “Ripper” Owens. Quanto a “Metal Forever”, seu riff inicial lembrou muito o de “Wasted Years” (Iron Maiden), assim como a levada galopante que veio no decorrer e só confirmou a referência maciça da Donzela de Ferro nessa composição. Foi um show curto do Hellish War, porém bastante convincente, e que mostrou que em termos de heavy tradicional, temos nessa banda campineira uma de nossas melhores representantes do gênero.

A partir daí, a expectativa para o primeiro encontro com a atração principal da noite tomou conta. A quantidade de público havia melhorado bem, mas ainda era longe da esperada que marcasse presença no show de uma banda com tantos predicados. Além do fato de estarmos prestes a presenciar um show antes improvável de acontecer em nosso país, o Armored Saint, que como mencionado desembarcou com a formação quase que inteiramente clássica, tinha como outros atrativos uma discografia respeitada e um vocalista como John Bush, que não só fez um trabalho brilhante também no Anthrax, como por pouco não se tornou frontman de uma instituição da música pesada: Metallica. Finalmente, quando a introdução começou a rolar no som mecânico, a histeria foi geral. Velhos e novos fãs viram os integrantes do Armored Saint tomando o palco de assalto. E aí, meu amigo e minha amiga, o repertório que começou pela faixa título do mais recente álbum de estúdio do Santo Blindado, “Win Hands Down” (2015), foi um deleite para nossos ouvidos. Ainda que tenha notado a ausência de um maior público, o quinteto estava muito feliz no palco.

Em entrevistas recentes, Bush havia afirmado que por ser a primeira vez da banda no país, nenhum dos sete álbuns do Armored Saint seria poupado no set. Ótimo! E se todos já estavam em êxtase, a coisa melhorou com “March of the Saint”, do marcante primeiro álbum homônimo, lançado em 1984. Esse hino contagiou à todos com seu ritmo acelerado e refrão simples e grudento, que foi cantado em uníssono, em alto e bom som. Falando em cantar, foi de emocionar ver o quão bem o versátil John Bush ainda cumpre sua função. Sua potência e clareza vocal estão intactas, e é por causa dessas qualidades que entendo o porquê de muitos fãs do Anthrax preferirem ele à Joey Belladonna. A performance de seus companheiros era igualmente digna de elogios. Apesar de cinquentões, nenhum deles parecia sentir a idade – mas era engraçado ver Phil Sandoval colocando os óculos no intervalo entre algumas músicas cada vez que ia ler a próxima do setlist ou mexer em sua pedaleira. No caso de Gonzo, por exemplo, é impressionante o quão forte ele ainda espanca sua bateria. Joey Vera, então, atua como se fosse um adolescente, fazendo careta o tempo todo, se movimentando bastante, agitando como um punk e sentando o dedo com muita precisão e técnica nas quatro cordas. Já a dupla Duncan e Sandoval se completa com riffs viscerais e com guitarras gêmeas cortantes, que surgem em certas músicas. Eles estavam muito bem entrosados, claro, afinal, estão juntos desde 1989!

No repertório, não faltaram pedradas como a eletrizante “After Me, the Flood”, única de “Revelation” (2000), “Nervous Man”, do impactante “Delirious Nomad” (1985), “Raising Fear” – legal que Bush deixou nas mãos do público optar por essa ou “Chemical “Euphoria” – e “Book of Blood”, do brutal terceiro álbum “Raising Fear” (1987),  “Left Hook from Right”, também única de “La Raza” (2010), e várias de “Symbol of Salvation” (1991), que até hoje é considerado o favorito e comercialmente principal álbum da banda (inclusive por mim). E desse, que é um disco que flerta bastante com o hard rock, foram executadas as grooveadas “Tribal Dance” e “Symbol of Salvation”, em que Bush até utilizou-se de um chocalho para colaborar com nos ritmos dançantes, a belíssima “Last Train Home”, que começou num clima de arrepiar, e a instigante “Reign of Fire”. Mas o ponto alto do show aconteceu na comemorada “Aftermath”. Quando todos acharam que John Bush saiu do palco para ir se refrescar ou descansar, o brincalhão, carismático e comunicativo vocalista surgiu cantando-a em cima do balcão do bar que ficava ao lado esquerdo da pista. Melhor que isso, ele desceu de lá e a continuou nos braços do público. Uma prova não só de humildade, mas de confiança na pacificidade dos fãs brasileiros. Aliás, que legal que esse show tenha acontecido num local tão intimista, em que o público pode ver de perto os seus ídolos.

O final da apresentação do Armored Saint foi explosiva. A dobradinha de encerramento trouxe outros dois hinos de “March of the Saint”: “Can U Deliver” e “Mad House”. Foi um show irretocável, aquilo que os fãs sempre esperaram do Armored Saint. E olha que, mesmo sendo domingo, ninguém arredaria pé do local se a banda ainda tivesse incluído em seu repertório músicas como a não escolhida pelo público “Chemical Euphoria”, “Dropping Like Flies”, “The Truth Always Hurts”, “Another Day”, “Spineless”, as pedidas “Warzone” e “Burning Question”, e também “Pay Dirt”. Mas não há o que reclamar, só de o Armored Saint ter, finalmente, desembarcado no Brasil, já é motivo de comemoração. Para a alegria daqueles que permaneceram no local após o show, tiveram a chance de confraternizar com os cinco simpáticos integrantes, que os atenderam na pista para selfies, autógrafos e bate-papos.

No dia seguinte, durante o “Blind Ear” que fiz com o animado Phil Sandoval para a edição impressa da ROADIE CREW, o guitarrista revelou que a banda já está com algumas músicas prontas para um próximo álbum, que, segundo ele, deverá ser lançado em meados de 2019. Sandoval disse também que ele e seus companheiros, que me perguntaram empolgados e curiosos pelo o que os fãs acharam do show da noite anterior, esperam vir divulgá-lo em uma nova turnê pela América do Sul. Assim esperamos, pois o que se viu no palco do Fabrique Club, certamente engrossou a lista dos melhores shows que aconteceram no Brasil em 2018!

ARMORED SAINT – Setlist:

Intro

Win Hands Down

March or the Saint

Tribal Dance

After Me, the Flood

Nervous Man

Last Train Home

Raising Fear

Symbol of Salvation

Book of Blood

Mess

Aftermath

Left Hook from Right Field

Reign of Fire

Can U Deliver

Mad House

 

HELLISH WAR – Setlist:

Keep it Hellish

The Challenge

Defender of Metal

Destroyer

Metal Forever

We Are Living for the Metal

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