Live Evil

BRUJERÍA

Clash Club - São Paulo/SP, 09 de março de 2014

Um grupo de mascarados levou terror ao Centro de São Paulo e não estamos falando de uma manifestação contra a Copa e o governo. Uma banda de anônimos inspirados por Satanás levou sua música a uma turba de desajustados e não se trata dos clérigos suecos do Ghost.
O grupo em questão teve sua origem mítica nos becos mexicanos e nas grandes cidades americanas onde a presença latina é indesejada, apesar de extremamente necessária. O Brujería expôs uma cabeça decapitada na capa de seu disco “Matando Güeros” (1993), muito antes desse expediente se tornar comum entre os narcotraficantes que implantaram o terror no norte do México. E expôs a veia revolucionária latino americana com maestria ao apresentar o subcomandante Marcos, porta-voz do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), na capa do seu segundo álbum “Raza Odiada” (1995). E antes que possa ser chamada de socialista ou comunista, o sentimento e posicionamento da banda (particularmente de seu membro cubano, o carismático Fantasma), revelam-se sem rodeios em Anti-Castro, uma afronta direta ao imortal líder cubano, amado por muitos e odiado por tantos mais.

Test foi encarregado da abertura do evento, só que desta vez no palco e não na calçada, como fez com o próprio Brujería às portas do Hangar 110 em 2012. A dupla composta por João Kombi (guitarra e vocal) e Thiago Barata (bateria), impressionou uma vez mais os presentes. Comunicação zero com a plateia, que em momento algum se ressentiu desse expediente, pois esteve frente a uma manifestação genuinamente estúpida e extrema. A banda resolveu o set list na hora, como de praxe. Músicas como Celebrar Venha, Ele Morreu Sem Saber o Porquê, Direção/Desastre, Antes do Fim e Quase Capetão impressionaram até um incrédulo Hongo, que em certo momento perguntou sobre a banda que abria o show do Brujería. Ao saber que se tratava do Test, comentou: “Esse baterista é matador!” Sim caro Hongo, Thiago Barata excede qualquer parâmetro de comparação.

Poucos minutos depois, o Brujería surgiu e implantou o caos na casa. Juan Brujo, chefe do bando e vocalista, saudou os presentes com Verga Del Brujo, uma ode às suas capacidades fálicas mágicas e malévolas. Completam o bando Fantasma (porta-voz e vocalista), Hongo (guitarra), AA Kuerno (guitarra) El Cynico (baixo) e Hongo Jr. (bateria). O bufão do bando, Pinche Peach, não acompanhou o bando e todos se questionaram se ele não teria sido detido por “La Migra” (U.S. Immigration and Customs Enforcement).

A banda continuou sua apologia à vida torta com El Desmadre, música que teve em sua versão original a participação do finado Cristo de Pisto, rapidamente emendada com a insana Colas de Rata, uma homenagem ao produto da planta que cresce nos altiplanos andinos. Na sequência, No Aceptan Imitaciones, um recado direto ao ex-membro e agora desafeto Asesino, que segue com sua banda tocando sons do Brujería e outros próprios, que seguem a mesma linha deste projeto original. Marcha de Odio é uma das preferidas do álbum Brujerizmo (2000), trabalho onde a banda se colocou no posto de representante dos povos indígenas mexicanos, conclamando todos seus fãs a se juntarem ao “Exército do Brujería”.

Hechando Chingazos é uma das faixas cantadas por Fantasma, que ao vivo se sobrepõem tranquilamente ao chefe Juan Brujo, que por vezes parece carecer de fôlego para segurar a bronca, principalmente nas vocalizações mais rápidas. Tivemos poucos sons novos na noite paulistana. A primeira foi Angel de la Frontera, mais uma onde a fronteira México/ Estados Unidos é o tema, seguida imediatamente pela popular La Migra, onde a falta dos gritos de Pinche foram mais sentidos.

Pocho Aztlan, que provavelmente batizará o novo disco da banda (o primeiro em quatorze anos), deu uma ideia de como virá o novo trabalho, mais agressivo que seu antecessor. A banda executou uma sequência que contou com Sida de la Mente, Satongo e Cuiden a los Niños. Nesse momento Fantasma passou a apresentar os membros do bando, com destaque a El Cynico, a quem chamou de “El mas chingón de todos”, hora em que Hongo Jr. “inexplicavelmente” tocou a introdução de Corporal Jigsore Quandary do Carcass.

Outro destaque das apresentações foi a do ex-baixista e atual guitarrista Hongo, que recebeu um terno elogio à sua cabeleira, num formato de “explosão atômica”. Após as formalidades, a banda atacou com Brujerizmo, sucedida por Anti-Castro, antes da qual o cubano Fantasma fez seu famoso discurso contra Fidel Castro, além de criticar a polêmica contratação de médicos cubanos pelo governo brasileiro no programa ´”Mais Médicos”. A memória do mítico Emiliano Zapata (1879-1919), um dos líderes da Revolução Mexicana, foi exaltada em Revolución.

La Ley de Plomo, Cruza la Frontera e División Del Norte (esta última uma ode ao outro grande líder da revolução, Pancho Villa), mantiveram o ambiente caótico, que assistiu o ápice da apresentação em seu final, na trinca composta por Consejos Narcos, Pito Wilson (Raza Odiada) e o hino maior do bando, Matando Güeros. A quarta passagem do Brujería por São Paulo provou que a banda continua com moral alto entre os “greñudos locos” brasileiros, lotando a casa numa noite em que os Ratos de Porão faziam outro show histórico em comemoração aos 30 anos do álbum Crucificados pelo Sistema, também na capital paulista. O certo seria que ambos dividissem o mesmo palco, mas a nós só coube lamentar o fato disso não ter acontecido.

Glossário de identidades:
El Cynico: Jeff Walker (Carcass)
Hongo: Shane Embury (Napalm Death)
Hongo Jr.: Nick Barker (Lock Up)
Asesino: Dino Cazares (Fear Factory)
AA Kuerno (de Chivo): Chris Paccou (Hicks Kinison)
Cristo de Pisto: Jesse Pintado (Napalm Death/ Terrorizer – R.I.P.)
Fantasma – Pat Hoed
Juan Brujo: John Lepe
Pinche Peach – ???

 

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