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KHAOTIC “…o ser humano é falho e defeituoso, egoísta e traidor…”

"...a humanidade cada vez mais enfraquecida por ideais escravistas..."

Na luta pelo negro Underground ao lado do Ocultan por quase 20 anos a D. Profaner vem surpreendendo a cena com o seu projeto chamado Khaotic. Gentilmente nos cede esta entrevista e nos fala à respeito deste projeto e toda ideologia que o envolve. Já com dois álbuns oficiais, ela revela que mais um álbum odioso está por vir institulado “Antithesis”.

O Khaotic é um projeto idealizado por você, sendo o único membro. Como surgiu a ideia do projeto?
D. Profaner – A ideia de criar um projeto que transmitisse uma atmosfera obscura, além de tudo que penso a respeito do mundo que nos cerca já existia há muito tempo, há pelo menos 8 anos, no entanto uma série de fatores impedia que eu tivesse tempo para coloca-lo em prática, tanto pela dedicação ao meu trabalho no Ocultan assim como outros projetos como o selo Pazuzu Records. Chegou um momento em que percebi que não poderia mais adiar essa ideia ou ela nunca sairia do papel, e em 2012, a partir do momento que escolhi o nome “Khaotic” (algo que remetesse à atmosfera musical caótica), comecei compor de forma à transmitir obscuros sentimentos, escolhi fazer tudo sozinha pois o Khaotic é algo extremamente pessoal, não quis envolver outras pessoas, criar uma formação, pois o que quero expressar na música são meus sentimentos e visões a respeito do obscuro, do mundo que nos cerca, da humanidade cada vez mais enfraquecida por ideais escravistas.

Você é membro de uma das mais importantes bandas do Brasil, o grande Ocultan. Como está sendo essa conciliação entre o Ocultan e o Khaotic?
D. Profaner – Um trabalho não interfere no outro pois o Khaotic é só um projeto, eu componho, gravo e lanço os materiais, não tem shows nem ensaios, então não afeta as atividades com o Ocultan! Apenas evito compor para ambos na mesma época para não correr o risco de ter composições parecidas, já que as propostas são diferentes.

Hoje a tecnologia nos proporciona a incrível versatilidade para poder criar linhas de bateria programada de forma brilhante, e nos trabalhos do Khaotic percebi que estão muito bem encaixados às músicas. Essa parte técnica é também feita por você? Em algum momento houve a ideia do Count Imperium gravar as linhas de bateria, já que ele é um ótimo baterista?
D. Profaner – Eu crio todas as linhas de bateria no Khaotic, nunca cogitei chamar ele ou outro baterista para fazer as linhas pois quero que o Khaotic seja algo 100% meu. Hoje temos recursos, plugins e programas que possibilitam fazer uma bateria perfeita sem soar como uma bateria eletrônica, mas conhecimento e noção musical sobre o instrumento também é essencial para criar uma linha de bateria mais trabalhada, já toquei bateria há muito tempo, o que me possibilitou trabalhar melhor nisso. Preferi criar uma bateria programada do que toca-la pois tenho minhas limitações e teria que treinar o instrumento durante muito tempo para conseguir fazer algo decente.

Você está nesta luta incessante no negro underground brasileiro desde os anos 90 e conhecida como Lady Of Blood, e, no Khaotic como D. Profaner. Por que?
D. Profaner – Sim, com o Ocultan são quase 20 anos de trabalho, comecei a tocar na banda em 1999!!
São dois trabalhos distintos, não quero que as pessoas associem uma banda com a outra, o pseudônimo Lady of Blood é uma homenagem à Dama do Sangue, entidade pertencente à Quimbanda e que é a temática lírica mais presente no Ocultan.
A temática lírica do Khaotic aborda o desprezo à humanidade e às religiões abraâmicas, a rejeição desse mundo material e ilusório, além de diversas letras profanas e blasfêmicas (especialmente na primeira demo tape Antichrist Propaganda), no inicio do projeto o tema mais presente nas letras era esse citado por último, por isso o pseudônimo D. Profaner.

A veia ideológica concebida nas letras é claramente perceptível e quanto às músicas senti uma atmosfera muito negra e odiosa. De onde vem as inspirações para a criação das músicas?
D. Profaner –  Como havia falado anteriormente, os temas líricos abordam o desprezo à humanidade e às religiões abraâmicas, a rejeição desse mundo ilusório, o caminho de mão esquerda.
As letras do Khaotic refletem exatamente meu pensamento a respeito deste mundo, da existência e do pós morte que considero a libertação desta prisão, as ideias destrutivas e obscuras contidas nas letras é uma forma de expressar minha negação em relação à este mundo que apenas aprisiona e limita o ser, vivemos uma ilusão, a vida pode oferecer coisas agradáveis mas na maior parte do tempo é só dor e sofrimento, o ser humano é falho e defeituoso, egoísta e traidor, o livre arbítrio é uma falsa afirmativa porém a maioria das pessoas acreditam nisso, no entanto todos são escravos de diversos sistemas que regem este mundo material, não somos seres totalmente livres embora dentro do contexto obscuro buscamos a plena liberdade, dentro deste contexto a única maneira de se libertar dessa prisão é no momento de nossa morte material. No entanto, enquanto vivemos nesse mundo, temos que nos sujeitar às suas regras porém sempre buscando sabedoria e evolução do nosso ser interior.

Existe a possibilidade deste projeto se tornar sua segunda banda?
D. Profaner – Definitivamente não, muitas pessoas gostariam de ver o Khaotic ao vivo mas não pretendo ter uma formação nem para essa finalidade, é raro conseguir pessoas para tocar que compartilham da mesma ideia e que levem um trabalho à sério, principalmente se for só para shows ao vivo. E o Khaotic é algo extremamente pessoal, não tenho intenções de envolver terceiros nisso.

 Falando dos álbuns lançados. A distribuição está sendo satisfatória?
D. Profaner – Sim, tem sido satisfatória, o primeiro álbum lançado pela Pazuzu está praticamente esgotado e o segundo álbum está fora de catálogo ! Apesar das dificuldades atuais no mercado de CDs, a divulgação dos materiais atendeu todas as expectativas.
A receptividade tem sido excelente, quando surgiu a ideia de criar o Khaotic, as pessoas pensaram que seria um projeto na linha do Ocultan, depois de lançar a primeira demo tape, o que chamou a atenção foi justamente o contrário, um trabalho totalmente diferente do que faço no Ocultan !

Possuo em minha coleção os seus dois álbuns e os aprecio muito. O conceito nas artes gráficas neles também é feito por você?
D. Profaner – Sim, eu que desenvolvo toda arte, o primeiro álbum Tenebrae eu trabalhei em todo conceito e criação da arte da capa, já no álbum Ars Obscurum os desenhos ilustrados na capa e encarte foram feitos pelo artista Emerson Maia, os desenhos originais são feitos em caneta bic, me encarreguei de criar os efeitos, texturas e cores. Já estou trabalhando no conceito gráfico do próximo álbum, nele haverá ilustrações de outro grande artista brasileiro, Márcio Rogério Silva, que disponibilizou magníficos desenhos tanto para o Ocultan quanto Khaotic!

Seu desprezo pelo cristianismo é muito evidente nas letras que são muito diretas e incisivas. A primeira vez que a ví foi no segundo álbum do Ocultan “Lembranças do Mal, A Crucificação” e a banda era declaradamente Quinbandista. Essa influência também corre nas veias do Khaotic?
D. Profaner – Sim, esse é um tema recorrente em minhas letras, a Quimbanda não é abordada nas letras do Khaotic pois já é um tema bem presente no Ocultan, visto que alguns de nós somos adeptos. Embora atualmente no Ocultan a Quimbanda não é o único tema abordado, quis fazer algo diferente no Khaotic.
Abordo o tema em minhas letras como forma de desmascarar a mentira que é o cristianismo, a escravidão, servidão e intolerância imposta, a rejeição à sabedoria e conhecimento, a manipulação de mentes fracas ao longo de séculos. Vejo o cristianismo e outras religiões abraâmicas como o verdadeiro mal, uma maneira de escravizar e tornar fanático o ser humano que não é capaz alcançar iluminação, fanatismo é totalmente o oposto de evolução espiritual.

O último álbum foi concebido em 2015, vem um novo trabalho em breve?
D. Profaner – Sim, estou trabalhando nele, as músicas já estão finalizadas e nesse momento estou trabalhando na concepção lírica, mas ainda não há data para lançamento pois ainda não tenho nada fechado com um selo. Dentro de poucas semanas começarei as gravações e quando tudo estiver finalizado pretendo negociar com quem tiver interesse em lançar. Com a Pazuzu Rec. será inviável pois pretendemos encerrar as atividades com o selo em breve, com as dificuldades atuais para manter um selo e ainda sem tempo suficiente para se dedicar a isso, fica completamente inviável manter as atividades.

Acompanho sua carreira desde o Ocultan, em outrora não era comum vermos um membro mulher assumindo de forma competentíssima as seis cordas. Isso me chamou muito a atenção e daí sempre fui acompanhando os seus trabalhos e me tornei um fã. Quais foram as maiores dificuldades nos anos 90 no início de sua carreira e quais as vitórias mais importantes que foram conquistadas por você?
D. Profaner – Obrigado pelo apoio! As dificuldades enfrentadas com meu trabalho não teve relação nenhuma com eu ser mulher, mas sim de forma geral, dificuldade que diversas bandas enfrentam, dificuldades para produzir um material, exploração de alguns produtores que cobram para uma banda nacional tocar em seu evento, eles te procuram e querem impor ao que você deve se sujeitar para tocar no evento de merda deles, tirar grana do bolso, pagar as passagens, pagar taxa para abrir pra banda gringa, nunca nos sujeitamos e nem nos sujeitaremos a esse tipo de humilhação, mas infelizmente muitas bandas pagam para tocar pois veem uma oportunidade de divulgar seu trabalho, você  tira dinheiro do seu bolso o tempo todo para bancar ensaios, instrumentos e gravações, quando não se sujeita à determinadas situações, é chamado de estrelinha popstar. Além de outras situações como quando você sai de casa com vontade de apresentar seu trabalho ao vivo e se depara com péssimas condições, aparelhagem de má qualidade e eventos mal organizados.
Minha maior conquista foi o apoio, respeito e admiração que adquiri de todos apreciadores de meu trabalho!

 Nas entrevistas que tenho feito sempre uma pergunta, assim sabemos seus diferentes pontos de vista a respeito. Vou fazer para você também. Qual sua opinião a respeito na cena atual no Brasil e no Mundo?
D. Profaner – Fora do Brasil é meio complicado opinar pois não vivencio outras cenas, só posso dizer que existem bandas excelentes ao redor do mundo.
No Brasil temos muitas bandas sérias que batalham há anos assim como diversas que surgiram recentemente com uma proposta digna, apesar de termos tanta coisa boa e tantas bandas dedicadas, o que eu vejo atualmente em parte é disputa de quem é mais foda e panelinhas de todos os lados. Eu sempre costumei apontar diversas falhas em nossa cena como falta de apoio do publico, mas hoje em dia analisando bem, é melhor ter o apoio de poucas pessoas verdadeiras do que de uma massa que não entende nem o que você quer passar em sua música. Tem muita gente que só quer saber de mp3 e tomar cachaça em porta de evento, pra que choramingar pelo apoio de um tipo de pessoa dessa? Ou choramingar pela falta de apoio de brasileiros que tem aquele complexo de que banda internacional sempre será superior, as bandas internacionais tem sim uma puta qualidade, mas também as oportunidades são melhores, aqui tudo é mais difícil então a maioria das bandas fazem seu trabalho na “raça”, pessoas sem maturidade não vão entender isso, então não vale a pena reclamar pela falta de apoio delas!! Pra mim hoje em dia o que realmente vale a pena é se focar naqueles poucos que apoiam e entendem seu trabalho, não importa os números, temos reais apoiadores que se esforçam para adquirir materiais originais, que apoiam bandas em turnê adquirindo merchandising oficial, já teve pessoas de outro estado que veio pra São Paulo só para ver uma apresentação nossa, enfim, temos que nos focar no que realmente importa !

Fazem alguns anos que estive algumas vezes no seu estúdio para assistir aos ensaios e sempre fui muito bem recebido por você e o Count Imperium. Espero poder vê-los em breve. Foi um grande prazer poder realizar esta entrevista e agradeço toda sua atenção sempre muito especial… Um grande Hail à você!
D. Profaner – Agradeço pelo espaço cedido para eu expor um pouco das minhas opiniões! Valeu pelo seu verdadeiro apoio e suporte ao Ocultan e Khaotic! Agradeço à todos os reais guerreiros que vem apoiando meus trabalhos, mantenham a chama negra sempre acessa!!!

Abaixo o Vídeo Clip Oficial da música “Post Mortem”, álbum: Ars Obscurum, Ad Cultus Mortem.

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