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KILLING JOKE – São Paulo/SP, 23 de setembro de 2018

Carioca Club - São Paulo/SP

Por Claudio Borges

Metallica, Helmet, Foo Fighters e Fear Factory gravaram suas músicas; Nirvana os “plagiou”; Prong e Ministry recrutaram ex-baixista (o falecido Paul Raven); Jimmy Page os elogiou. Se você não esteve no Carioca Club, perdeu a oportunidade de conferir a importância do quarteto traduzindo sua força em canções e danças de guerra. Jaz Coleman (vocal), Kevin “Geordie” Walker (guitarra), Martin “Youth” Glover (baixo) e “Big” Paul Ferguson (bateria) – formação original reunida novamente em 2008 – compõem o núcleo responsável por um dos melhores shows do ano.

A misteriosa “Masked Ball”, da trilha sonora do filme “De Olhos bem Fechados”, de Jocelyn Pook, serve de introdução e mal pode ser ouvida em meio aos gritos de antecipação da plateia. Quando os primeiros acordes de “Love Like Blood” emergem sobre a introdução do teclado e seu groove atinge os quadris, é impossível não se mexer e cantar. Abrir uma apresentação com seu maior sucesso é manobra arriscada no previsível e engessado show business, exceto para quem desafia as convenções e sempre criou regras próprias. O hino das pistas pós-punk, baseado na obra do escritor nipônico Yukio Mishima, serve para o petardo “European Super State” manter o clima dançante.

Carismático e sorridente, Jaz interpreta cada palavra com expressões intensas e movimentos marciais. “Liberdade é a coisa mais bonita do mundo, não há mais tanta liberdade assim. Esse lugar aqui é um lugar livre, uma zona autônoma”. Assim, o libelo libertário “Autonomous Zone” conclama a uma vida fora das cercas modernas. Retirada do pesado e feroz Pylon (2015), álbum mais recente que reflete o zeitgeist desses tempos conturbados. Tal qual “Eighties” fez com a década de seu título. O riff que o Nirvana pegou “emprestado” para criar “Come as you Are”, rasga os ouvidos e traz um pequeno ar nostálgico para quem viveu a época. Plágio ou não, a semelhança entre a perspectiva sombria dos anos 1980 e o hit contido em Nevermind, causa desconforto. Ficou até barato: a ação judicial por direitos autorais foi retirada após a morte de Kurt Cobain. Anos depois, para saldar essa dívida, Dave Ghrol (Nirvana, Foo Fighters) gravou bateria no álbum homônimo, de 2003.

“Há uma nova guerra fria com muita interferência na política do Brasil, Eles querem tirar suas riquezas minerais”, direto no ponto ao introduzir “New Cold War”, também do último lançamento. Posicionamentos fortes nunca representaram problema: capas com imagens polêmicas, como a da coletânea Laugh? I Nearly Bought One! (1992), que traz soldados nazistas enfileirados saudando o abade alemão Alban Schachleiter ou a montagem de Fred Astaire dançando em um campo de batalha na capa do single “Wardance” (1980), corroboram seus posicionamentos inteligentes.

Surgido em 1978, tendo uma cinzenta Londres como cenário, o grupo uniu elementos do punk, dub reggae e de música eletrônica em um desenho sonoro bastante original.  “Requiem”, do homônimo debut (1980), é um bom exemplo das inusitadas combinações realizadas e introduz o bloco dessa fase inicial para alegria do público, a essa altura, um tanto morno.

“Vocês gostaram da eleição americana? Eu não quero uma nova ordem mundial. Eu gosto de diversidade!” Tímidos aplausos ressoam, seja por não entendimento, seja pelo clima de polarização política presente às vésperas de uma importante eleição. “Follow the Leaders” continua na trilha de temas políticos e a demonstrar o som mais primitivo e tribal do começo de carreira.

É da personalidade marcante e diversa desses quatro músicos que surgiu a unidade sonora tão própria. As partes trabalham em prol do todo. Não há espaços para virtuosismos desnecessários.  Bom exemplo disso é a instrumental “Bloodsports”. Ao vivo, Jaz acaba por improvisar algumas falas sobre a ferocidade do ser humano em uma sacolejante composição.

Big Paul é um metrônomo cheio de groove. Aliado ao seu companheiro rítmico, Youth – produtor de sucesso, trabalhou com The Cult, Paul Mccartney, Pink Floyd, entre outros – formam uma “cozinha” sem par. Inventivo, Geordie é um dos guitarristas mais subestimados de todos os tempos. Com sua fiel Gibson ES semi-acústica constrói riffs, despeja harmônicos, usa afinação fora do padrão e faz soar notas que sobrevoam a base rítmica de forma singular. Impressiona como suas feições sugerem um quase tédio enquanto, sem demonstrar nenhum esforço, vai tocando uma bela parede sonora. O que contrasta com presença intensa e careteira do cantor. Jaz possui uma voz facilmente reconhecível, seja cantando de forma limpa e melódica ou vociferando como um Lemmy pós-punk. Cada vez mais parecido com Alice Cooper, comanda a apresentação erguendo os braços para reger a plateia. Não à toa, também é arranjador e compositor de música clássica, tendo trabalhado com orquestras como a filarmônica de Londres e a sinfônica de Praga. Assim como Geordie, foi elogiado por ninguém menos que Jimmy Page ao realizar o álbum Kashimir: Symphonic Led Zeppelin.

“Butcher”, “Loose Canon” e “Labyrinth” diminuem o ritmo de forma mais cadenciada e acabam por deixar o show mais parado. Impressiona, porém, a intensidade do grupo mesmo depois de 40 anos de estrada e muitas mudanças de formação. Ao contrário de muitas bandas, o Killing Joke foi ficando cada vez mais pesado. Há álbuns onde os riffs se aproximam bastante do heavy metal (como na ausente Millenium, de 1994). A já citada influência em bandas tão diversas quanto Ministry, Prong e Helmet fica clara quando voltam a pesar o repertório com “Corporate Elect”, enquanto “Asteroid” pesa no ritmo e nos gritos primais. “The Wait”, mais conhecida como a “música que o Metallica gravou”, tem no riff e na batida forte os elementos para agradar a quem deseja batimentos cardíacos no máximo. O primeiro ato termina com a magnífica “Psyyche” (lado B do single Wardance, 1980). Para uma das primeiras músicas compostas pelo grupo, ela se mantém como o perfeito diagrama do que é o Killing Joke: peso com groove.

Pequena pausa encerrada pelos clássicos “Primitive” e “wardance” – outra boa representação da banda. O fim chega com a premonitória “Pandemonium” (“eu posso ver o amanhã, Posso ver o mundo que virá, escute o pandemônio”) em uma versão ainda melhor que a registrada em estúdio.

Foram décadas de espera por uma visita do Killing Joke ao hemisfério sul. Se por um lado a espera foi recompensada, um show de cerca de uma hora e meia não é suficiente para passar a limpo as quatro décadas da banda. Mas o vigor e a intensidade do show foram suficientes para abrir muitos sorrisos. Quem ri por último, ri melhor.

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