Live Evil

MARILLION

Vivo Rio - Rio de Janeiro/RJ, 10 de maio de 2014

Trinta e cinco anos de história, 16 discos de inéditas e uma turnê batizada de “Best Sounds”. No caso do Marillion, fica a pergunta: melhor para quem? Apesar de Fish ter gravado apenas os quatro primeiros álbuns, apesar de Steve Hogarth estar na banda há 26 anos, um show com roupagem de coletânea ajudou a dividir a opinião dos fãs. Sim, porque você pode não acreditar nas viúvas, mas que elas existem, existem. E o quinteto inglês iniciou os trabalhos num Vivo Rio bem cheio – apesar da chuva que tentou estragar o programa de sábado à noite – dando a primeira munição para aqueles que gostam somente de viver no passado: os 18 minutos da ótima Gaza, faixa do não menos ótimo Sounds That Can’t Be Made (2012), deixaram a plateia hipnotizada. Não houve histeria, não houve cantoria em uníssono, e isso não significou desprezo. Significou respeito. Ponto para a banda, que na sequência imediata mostrou a riqueza conhecida do repertório com Hogarth. Com um daqueles solos de guitarra que deveriam ser enviados ao espaço, para mostrar que o ser humano é capaz de criar algo tão belo, Easter encantou como sempre, abrindo caminho para o hit Beautifulterminar de fazer o público soltar a voz.

A vigorosa Power retomou o trabalho de estúdio mais recente, e a épica Ocean Cloud, do aclamado Marbles (2004), mostrou como está equivocado quem acusa a banda de não ser mais a mesma por ter renegado o Rock Progressivo. Na verdade, o Marillion é muito mais do que isso.É também a romântica (mas nem de longe brega) No One Can. Éo resgateaosprimórdios com as excelentes Warm Wet Circles e That Time Of The Night (The Short Straw), da obra-primaClutching At Straws (1987), para dar um afago na alma de todos que estavam lá muito mais à espera do material com Fish. Felizmente, a prova de que estes não eram maioria surgiu com a trincaque encerrou o set antes do bis.Afinal, Cover My Eyes (Pain And Heaven) e Hooks In You sacudiram para valer a casa, arrancando sorrisos e coros entusiasmadosmesmo dos mais turrões. E trouxeram a reboque a sensacional Man Of A Thousand Faces, com o ótimo solo do tecladista Mark Kelly(emulando o som de piano no teclado) e uma das inúmeras letras inspiradíssimas de Hogarth. Foi para aplaudir com entusiasmo.

Deep Purple e Smoke On The Water. Black Sabbath e Paranoid. Kiss e Rock And Roll All Nite. AC/DC e Highway To Hell. Slayer e Raining Blood. Sepultura e Roots Bloody Roots. Chega a ser inimaginável desassociar bandas de seu clássico mais representativo.E como o Marillion não foge à regra, o bis até certo ponto foi previsível:Kayleigh causou a comoção esperada, e Lavender desta vez seguiu o roteiro – em outubro de 2012, no mesmo Vivo Rio, ela não estava no setlist e foi tocada porque o público começou a cantá-la “a cappella”, no momento mais emocionante daquela noite. Previsível, mas ainda assim foi apoteótico. Não que precisasse, mas Hogarth pôde descansar a garganta, já que os fãs fizeram boa parte do serviço, que se estendeu também paraHeart Of Lothiane o empolgante coro de “Wide boys” da letra. Poderia ter acabado aí, sem um segundo bis, uma vez que Neverland, apesar de belíssima, não deixa de ser um anticlímax graças a uma aura mais introspectiva. Mas… Interrompemos nossa programação normal para um registro importante: Kelly, Pete Trewavas (baixo) e Ian Mosley (bateria) são músicos acima de qualquer suspeita, e o show é comandado por Hogarth, um dos melhores “frontmen” que já pisaram num palco e que (ainda) está cantando uma barbaridade, mas Steve Rothery merece um estudo à parte.

A postura tímida do guitarrista resulta em sorrisos sinceros a cada ovação recebida por solos magistrais, a cada nota sempre bem colocada e por timbresbonitos de doer. E foram várias ovações. Rothery é daqueles guitarristas que não usam seu instrumento como um carro de Fórmula 1, mas sim daqueles que jogam para a música. E a sua aula de classe e bom gosto nos primeiros minutos de Neverland, com forte influência de David Gilmour, fez valer a pena um encerramento que não fosse com, por exemplo, Incommunicadoou qualquer hit do passado ou do presente. Melhor para quem? O conceito é relativo, e a resposta, simples: melhor para o fã do Marillion.

Setlist:
Gaza
Easter
Beautiful
Power
Ocean Cloud
No One Can
Warm Wet Circles
That Time Of The Night (The Short Straw)
Cover My Eyes (Pain And Heaven)
Hooks In You
Man Of A Thousand Faces
Kayleigh
Lavender
Heart Of Lothian
Neverland

 

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