Live Evil

SATYRICON

Hangar 110 - São Paulo/SP, 06 de novembro de 2011

O tempo em que permaneci na porta do Hangar 110 esperando para ver uma das bandas mais importantes da história do Black Metal, o Satyricon, que pela primeira vez em sua história pisava no Brasil, me fez refletir sobre o que foi e o que se tornou o Metal Negro. Tive muito tempo para isso, afinal, foram absurdas três horas de espera – o show marcado para 19h começou às 22h – e um filme me passou pela cabeça. De um círculo ora restrito, o Black Metal se tornou tão grande quanto qualquer outro estilo do Metal – vide o tamanho da fila para entrar na casa e também o público que lotou o Carioca para ver o Immortal três semanas antes.

De fora do Hangar, dava para ouvir o Satyricon passando o som. O próprio Frost montou o seu set de bateria e há quem diga que ele já estava com o ‘corpse paint’ desde quando a banda entrou na casa. Um teclado denunciou de onde viriam alguns samplers e os backings pré-gravados de Satyr. O pedestal formava um enorme tridente e o kit de bateria de Frost tomava toda a parte de trás do palco.

Perto das 22h, uma pequena introdução serviu para a entrada de cada componente da banda – nas apresentações na América Latina completaram o line-up os músicos Steinar “Azarak” Gundersen e Gildas Le Pape (guitarras) e Silmaeth (baixo, ex-Mayhem). Satyr se posicionou frente ao tridente-pedestal, segurou suas duas pontas, olhou para todos os cantos da casa e perguntou: “Are you ready for this?” E assim começou o show com Repine Bastard Nation, do álbum Volcano, de 2002.

The Wolfpack, de The Age Of Nero (2008) e Now, Diabolical, do disco homônimo, colocaram por água abaixo as esperanças daqueles que ainda tinham algum suspiro de ouvir um set só de clássicos antigos, embora a execução de uma obra de arte como Forhekset, de um dos discos mais fundamentais da história do Black Metal, Nemesis Divina (1995), oferecesse um feitiço de esperança. Foi interessante ver Satyr pedindo para o público fazer um coro na parte final do piano, talvez por saber dessa peculiaridade da plateia brasileira.

Sim, o Satyricon não é nem sombra do que foi musicalmente e magistralmente nos seus primeiros álbuns. Mas, apesar de diferente, gosto do teor mais sombrio, dark, rústico e cadenciado dos discos mais novos pós Rebel Extravaganza (1999) – ainda incompreensível para mim. E uma das grandes obras desde período tem o nome de Black Crow In A Tombstone e sua áurea negra de Celtic Frost e excelente contexto.

Ver Walk The Path Of Sorrow, do distante Dark Medieval Times (1994), foi como ter múltiplos orgasmos. Ainda que ao vivo tenha perdido seu conteúdo quase sussurrante, me senti transportado para duas décadas atrás. Filthgrinder não tem poder de fogo para competir, embora caótica. Commando e The Pentagram Burnsprovaram que boa parte do público aceitou bem a mutação do Satyricon. Nesta última, Satyr empunhou a guitarra e iniciou os riffs. Frost era incansável e agitava a cada levada de bateria.

Possessed, mais uma de Vulcano, abriu caminho para um clássico inesperado: a onipotente Du Som Hater Gud, executada em especial para o show do Brasil. Sensação igual só foi possível perante Hvite Krists Dod, que introduziu o clássico The Shadowthrone (1995) no set. E, sim, Mother North! Satyr ameaçou deixar o palco sem tocá-la e foi surpreendido por incansáveis pedidos da plateia. Frost estava exausto, provavelmente sofrendo muito com o calor quase insuportável dentro do Hangar. E ela começou com a parte do meio, com Satyr regendo o coro, e foi inexplicável a sensação de presenciar monumental obra do Black Metal. Se fosse o rei da Noruega, já teria a instituído como o hino nacional daquele país – assim como Valhalla, do Bathory, está para o hino nacional sueco. Um final estonteante, como deveria ser.

Em certo momento do show, Satyr disse que não entendia sequer uma palavra em português, mas sabia pelos olhares e pela expressão dos rostos de cada presente qual era a resposta para o show que acabaram de ver, o que o animava ainda mais a tocar e não deixar o palco. “Poderia ficar e tocar aqui eternamente”, refletiu. Nós também, Satyr. Tenha certeza disso.

SET LIST:
1. Repined Bastard Nation
2. The Wolfpack
3. Now, Diabolical
4. Forhekset
5. Black Crow on a Tombstone
6. Walk The Path Of Sorrow
7. Filthgrinder
8. Commando
9. The Pentagram Burns
10. Possessed
11. Du Som Hated Gud
12. The Sign Of The Trident
13. Hvite Krists Død
Encore:
14. K.I.N.G.
15. Fuel For Hatred
Encore 2:
16. Mother North

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