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SOLID ROCK – Judas Priest – Alice in Chains e Black Star Riders – 10 de novembro de 2018, São Paulo/SP

Allianz Parque – São Paulo (SP)

Quanta emoção a segunda edição do “Solid Rock” reservou ao público paulistano. Se em 2017 a produção do festival já havia acertado em cheio ao providenciar a volta do Deep Purple ao Brasil e escalou para abrir os também veteranos Cheap Trick e Tesla, grupos que nunca haviam pisado no país, dessa vez foi novamente digna de elogios. O gigante britânico Judas Priest, instituição do heavy metal, mais o Alice In Chains, nome forte do alto escalão do movimento grunge de Seattle, e o também americano Black Star Riders, que tem em seu line up músicos renomados e experientes, entre eles o ex-guitarrista do Thin Lizzy Scott Gorham, dividiram o palco do Allianz Parque no último sábado e proporcionaram à São Paulo um dos grandes encontros da música pesada em 2018. Judas e Alice In Chains vieram divulgar seus respectivos novos álbuns, Firepower e Rainier Fog. Já o Black Star Riders deu uma pausa na pré-produção de seu quarto material de estúdio, que será lançado no verão europeu (inverno no Hemisfério Sul), e estreou em solo brasileiro.

E foi exatamente o Black Star Riders a primeira atração a, literalmente, entrar em campo. O grupo foi fundado por Scott Gorham após inúmeras apresentações que realizou com o Thin Lizzy a partir de 1996, quando passou a homenagear o legado deixado por sua ex-banda e também a memória de seu velho parceiro Phil Lynott (vocal e baixo), falecido no ano de 1986. No repertório, o Black Star Riders apresentou músicas de seus três álbuns: All Hells Breaks Loose (2013), The Killer Instinct (2015) e Heavy Fire (2017). Com o dia ainda claro, devido ao horário de verão, Gorham, o norte irlandês Ricky Warwick (vocal e guitarra), que em 1994 abriu os shows do Megadeth no Brasil com sua ex-banda The Almighty, o baixista Robbie Crane, bastante conhecido dos fãs de hard rock por suas passagens por Ratt, Lynch Mob, Tuff, Adler’s Appetite, Saints of the Underground e pela banda solo de Vince Neil (Mötley Crüe), o estreante baterista Chad Szeliga (Breaking Benjamin / Black Label Society) e o guitarrista do Thunder Luke Morley, que estava apenas quebrando um galho, já que o recém anunciado Christian Martucci (Stone Sour) só assumirá a função no início de 2019, entraram agitando o público com duas do debut, as eletrizantes Bloodshot e a própria All Hells Breaks Loose.

Ricky Warwick do Black Star Riders

A tristeza de quem nunca teve a chance de assistir a um show do Thin Lizzy, em parte foi suprida não apenas por finalmente estar vendo Gorham, que entre 1974 a 1984 formou a famosa e influente dupla de guitarras gêmeas do grupo, ao lado de Brian Robertson, que depois passou pelo Motörhead, como também pelo próprio som do Black Star Riders, que possui referências similares. Até mesmo a voz e o estilo de cantar do carismático Warwick estão soando semelhantes aos de Phil Lynott. Como se não bastasse, a banda ainda tocou dois grandes clássicos do Thin Lizzy: Jailbreak e The Boys Are Back in Town. Ambas inflamaram o público, que até então já havia sido arrebatado pelo som do Black Star Riders. Do disco atual, tocaram apenas Heavy Fire e When the Night Comes In. Quanto aos destaques, ficam para as contagiantes Before the War e a derradeira Bound For Glory, que tem um solo inicial de guitarra que lembrou demais o de Guilty of Love do Whitesnake. Apesar de no começo o som ter ficado um pouco baixo, a apresentação do Black Star Riders agradou os fãs e certamente conquistou muita gente que ainda não conhecia a banda.

Assim que saíram do palco, os simpaticíssimos Gorham e Crane atenderam a ROADIE CREW em um lobby do estádio para matérias que em breve publicaremos em nossas páginas. Ao final das entrevistas, os dois fizeram questão de nos levar ao camarim para nos apresentar os demais integrantes. Todos estavam animados com o show que fizeram e com a recepção do público. Sobre sua primeira passagem pelo país, Robbie Crane comentou: “Eu amei o Brasil. É lindo!”. E revelou: “Eu estava ansioso para vir e experimentar a cultura, ver as pessoas, conhecer a língua… E não me decepcionei! Adorei ter tocado em Curitiba também, o local do show era incrível. Os hotéis daqui são ótimos. Está sendo muito bom estar aqui”, finalizou. Já o divertido Gorham também afirmou ter amado o país e se perguntou: “Uau, como que eu nunca estive aqui antes?”. E o guitarrista brincou ao explicar: “Sabe, eu concedi mais entrevistas do que você pode imaginar para a América do Sul e em cada uma delas os jornalistas me perguntavam o porquê de eu nunca ter vindo tocar aqui. Em todas eu respondia: “Oras, me arrumem a porra de um promotor que eu vou!”. Risos gerais!

De volta ao ‘front’, a vez agora era do Alice In Chains, que retornava a São Paulo depois de cinco anos. Após breve introdução mecânica com um tema sombrio ao piano, William DuVall (vocal e guitarra), Jerry Cantrell (guitarra e vocal), Mike Inez (baixo) e Sean Kinney (bateria) foram ovacionados pelos fãs e recepcionados por uma garoa indesejada, que chegou com o cair da noite. Contando com um painel luminoso no palco dando um efeito bacana e uma qualidade de som cristalina do início ao fim da apresentação, o quarteto abriu com Check My Brain, música de riff principal hipnótico, presente no álbum Black Gives Way to Blue (2009), que marcou a estreia de DuVall. Antes da seguinte, os fãs fizeram coro com o nome do grupo e comemoraram assim que ouviram os primeiros acordes de Again, única representante do homônimo álbum Alice in Chains (1995), que foi o primeiro com Inez e último de estúdio gravado pelo saudoso vocalista Layne Staley, falecido sete anos mais tarde em decorrência de overdose causada por ‘speedball’ (mistura de heroína com cocaína), motivada por depressão.

William DuVall do Alice In Chains

A primeira a ser tocada do novo álbum foi Never Fade, que boa parte do público já sabia a letra de cor e cantou junto com DuVall e Cantrell. Depois, foi a vez de começar a matar saudade do segundo álbum da banda, Dirt (1992), com a dobradinha Then Bones e Dam That River. Daí pra frente, somente três da era DuVall foram executadas: Hollow e Stone de The Devil Put Dinosaurs Here (2013) e The Only You Know, outra do recém lançado Rainier Fog. No mais, para a alegria dos fãs, o que rolou foi uma enxurrada de clássicos do citado Dirt e do igualmente bem sucedido disco de estreia, Facelift (1990). Em alto e bom som, muitos cantaram os hits Would? (tocado numa versão um pouco mais arrastada), Man in the Box e We Die Young, as também conhecidas e melancólicas Down in a Hole e Rooster e a obscura Angry Chair. Fora essas, ainda teve No Excuses, do EP Jar of Flies, de 1994. Apesar de DuVall, que ainda divide a opinião dos fãs do Alice In Chains, ter arriscado algumas palavras em português, a banda foi econômica nos discursos. Bom para os fãs, que puderam curtir mais músicas. E olha que faltaram outras pérolas do começo da carreira, como Sea of Sorrow e Love Hate Love, de Facelift, por exemplo. No entanto, Cantrell, DuVall e cia. fizeram o show eficiente de sempre e saíram aplaudidos pelo público.

Jerry Cantrell do Alice in Chains

Nessa era em que vivemos da tecnologia, muitos não conseguem segurar a curiosidade e antes de sair de casa pesquisam na internet o que foi que a banda que gosta tocou no show anterior. Dito isso, não foi nada estranho quando nos falantes começou a rolar a imortal War Pigs do Black Sabbath e o público enlouqueceu. Era o prenúncio da entrada do Judas Priest, que após épica introdução, surgiu triunfante de trás da enorme cortina estampada com sua famosa cruz em forma de candelabro, abrindo com a música que dá nome ao seu novo álbum, Firepower. Na sequência, a emenda com uma antiga: Running Wild, do “quarentão” Killing Machine (1978). De sobretudo prateado, Rob Halford era o centro das atenções. Porém mesmo o “metal god” estando bem amparado pela consistente cozinha formada pelos veteranos Ian Hill e Scott Travis, não tinha como o público desviar o olhar das guitarras. Reformulado, o Judas de hoje já não conta mais com os inigualáveis K.K. Downing, que há muito tempo deixou o grupo, e nem com Glenn Tipton, que mais recentemente deu adeus aos palcos por decorrência de seu diagnóstico de Mal de Parkinson. Entretanto, foi ótimo ver que Richie Faulkner e o estreante Andy Sneap, respeitado produtor que assumiu a vaga deixada por Tipton, estão segurando com louvor e maestria os lugares que um dia pertenceram a uma das mais brilhantes, respeitadas e influentes duplas de guitarristas da história do heavy metal.

Rob Halford

Foi curioso notar que o repertório contou com alguns clássicos tocados pelos ingleses em sua primeira passagem pelo Brasil, no Rock in Rio 2, em 1991, como: Hell Bent for Leather – claro, com Halford cantando montado em cima de uma Harley Davidson – Grinder, The Hellion/Electric Eye, The Ripper, Painkiller, The Green Manalishi (With the Two Pronged Crown), Breaking the Law, Living After Midnight e You’ve Got Another Thing Comin’. E se já não bastasse o setlist matador, que em certo momento nos deu a sensação de termos entrado em um túnel do tempo e de estarmos assistindo a um show do Judas nos anos 80, por conta de músicas mais ‘comerciais’ como Turbo Lover, Night Comes Down, Desert Plains e até mesmo as novas Rising From Ruins e No Surrender, que têm essa pegada ‘vintage’, o grupo resolveu nos emocionar mais ainda… Durante a execução de Freewheel Burning, que é uma ode a liberdade e a velocidade, muita gente chorou com as imagens no telão que exibiam diversas cenas do piloto e ídolo nacional Ayrton Senna. A homenagem remetia aos 30 anos do primeiro título do saudoso Senna, então na McLaren, e foi feita na véspera do GP Brasil de F-1, em que o inglês Lewis Hamilton se sagrou pentacampeão mundial. E quem prestou atenção, notou que o Judas Priest também homenageou duas bandas conterrâneas e contemporâneas suas. Se o Black Sabbath serviu de inspiração para o grupo entrar no palco após War Pigs, a despedida após Living After Midnight se deu ao som de We Are the Champions, do Queen.

Richie Faulkner do Judas Priest

Ainda sobre as performances individuais, Sneap pareceu estar bem a vontade e entrosado. Tocou muito bem e mostrou boa presença de palco. Mas quem impressionou mesmo foi Faulkner, que está há bem mais tempo na banda. Além de ser muito bom guitarrista, a altura do Judas Priest, o cara domina o palco, faz caras e bocas, agita o público o tempo todo e, com personalidade, impõe respeito. Quanto a Travis e Hill, ainda são aquilo que todo fã do Judas espera deles: o primeiro continua tocando com a mesma segurança, destreza e pegada de sempre, o outro segue discreto, agitando ao seu modo na lateral ao fundo do palco, e dando a propulsão exata para uma cozinha soar consistente. E o que falar de Rob Halford? Seus olhos enrugados e um tanto inchados já não escondem a idade. Já a voz desse senhor de 67 anos continua um absurdo. Com experiência, sabedoria e ‘malandragem’, Halford usufruia do reforço vocal do público quando necessário, mas quando resolvia soltar a voz fazia ainda melhor do que em anos anteriores. Impressionante! Sinceramente falando, eu não esperava menos do Judas Priest. E tanto ao vivo quanto em estúdio, o grupo tem mostrando totais condições de prosseguir sua estrada por mais alguns anos. Que os deuses do metal me ouçam e digam amém!

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