Live Evil

TESTAMENT / CANNIBAL CORPSE / GENOCÍDIO

Carioca Club - São Paulo/SP, 21 de novembro de 2015

O pacote montado pela Liberation Music Company contendo os norte-americanos do Testament e do Cannibal Corpse, mais os brasileiros do Genocídio, foi considerado perfeito pelos headbangers paulistanos, afinal, tal combo lhes daria a oportunidade de presenciar três dos grandes e respeitados nomes do Metal estremecendo o palco do Carioca Club. E realmente foi uma noite especial, porque o que esses veteranos proporcionaram ao público que, simplesmente lotou o local, foi digno de ser considerado não apenas um grande evento, mas também uma aula de música pesada. Pela primeira vez na história, Testament e Cannibal Corpse caíam juntos na estrada e a turnê em questão consistia em um total de catorze datas por sete países da América Latina, sendo que no Brasil, além de São Paulo, as duas bandas já haviam tocado dias antes nas capitais Fortaleza (CE), Porto Alegre (RS), Curitiba (PR) e Rio de Janeiro (RJ), e no dia seguinte se despediram do país em Belo Horizonte.

Perante a um bom público, o lendário Genocídio, que segue em frente na divulgação de “In Love With Hatred” (2013), deu início pontualmente às 18h00 – respeitando o horário pré-estabelecido -, ao soar da introdução “Birth Of Chaos”, que assim como no novo álbum, criou o clima exato para a entrada com o carro-chefe “Kill Brazil”. Nessa e na seguinte, “Transatlantic Catharsis”, o som esteve um pouco embolado, mas a partir de “Encephalic Disturbance” do cultuado ‘debut’ “Depression” (1990), Murillo Leite (vocal e guitarra), Rafael Orsi (guitarra), Wanderley Perna (baixo) e João Gobo (bateria) tiveram a qualidade de som a seu favor. Para esse evento em particular, o grupo adotou uma boa estratégia para a ocasião ao abrir mão de suas músicas mais góticas, optando por um repertório bem “porrada”, nocauteando os ‘bangers’ com seu conhecido Death Metal áspero e rasteiro.

De “Posthomous” (1996) foi executada a estrondosa “Cloister”, até que na sequência um dos grandes momentos pôde ser conferido através do cover para a clássica “Come To The Sabbath” dos dinamarqueses do Mercyful Fate, que originalmente a banda paulistana incluiu em “In Love With Hatred”. Assim que Murillo ressaltou que em 2016 o Genocídio completará três décadas de carreira, o quarteto prestou outra homenagem, dessa vez para um grande nome que, infelizmente, o Metal mundial perdeu no último dia 11 de novembro, o incomparável ex-baterista do Motörhead Phil “Philthy Animal” Taylor, dedicando em sua memória a música “Up Roar”, que através de seu videoclipe exibido na MTV, ajudou a banda a divulgar o álbum “Hoctaedrom” em 1993.

Com uma apresentação de apenas meia hora, o Genocídio passou muito bem seu recado, com a perfomance correta que lhe é de praxe, encerrando o set com “The Grave” e “The Clan”. Os integrantes deixaram o palco sendo bastante ovacionados pelos presentes. Foi um ato emocionante do público e mais do que merecido, já que o Genocídio é uma das bandas mais importantes da história do cenário brasileiro.

Dando prosseguimento à turnê de “A Skeletal Domain”, que fora lançado em 2014, o Cannibal Corpse estava de volta a São Paulo, tocando no mesmo palco de sua última visita ao país em junho de 2013. E às 19h00, essa instituição do Death Metal já estava em cena causando torcicolos em muita gente com a arrastada “Scourge Of Iron”, que fez com que o público logo providenciasse um insano mosh pit. Mas logo a brutalidade sonora ficou mais veloz com “Demented Aggression”, também do álbum “Torture” (2012). Infelizmente, duas coisas não foram compatíveis com o ótimo show que o Cannibal viria a apresentar ao longo de uma hora e dez minutos. Uma foi a equalização do som que deixou o vocal de George “Corpsegrinder” Fisher muito baixo, e a outra foi o fato de que como o grupo prefere usar em seus shows uma luz estática e vermelha, o palco ficou deveras escuro, impossibilitando não somente uma boa visão para o público, mas também a ação dos fotógrafos. Pelos camarotes, muita gente reclamava desse fator, já que era difícil enxergar os músicos com nitidez. Mas esses importantes detalhes foram incapazes de desanimar o público, que de maneira geral participava assiduamente de cada música tocada. Além do mais, o Cannibal, mesmo que tocando de forma mais burocrática dessa vez, mandava ver sem dó e nem pausas para a comunicação de Fisher com as pessoas presentes.

Algo muito interessante e inteligente por parte da banda foi ter incluído no repertório músicas de todos os seus discos de estúdio – exceto do segundo, “Butchered At Birth” (1991) -, algo que é muito raro em se tratando de bandas que possuem tantos álbuns. Sendo assim, como sempre, “Corpsegrinder” urrava e girava seu “generoso” pescoço, enquanto que o genial baixista Alex Webster, o preciso Paul Mazurkiewicz (bateria) e os competentes Rob Barrett e Pat O’Brien (guitarras) mandavam, impiedosamente, clássicos e mais clássicos, como as faixas título dos respectivos “The Wretched Spawn” (2004) e “Evisceration Plague” (2009), e também “Stripped, Raped And Strangled” de “The Bleeding” (1994), “Disposal Of The Body” e “Sentenced To Burn” de “Gallery Of Suicide” (1998), “I Cum Blood” e “Hammer Smashed Face” do respeitado “Tomb Of The Mutilated” (1992), “A Skull Full Of Maggots” do ‘debut’ “Eaten Back To Life” (1990), e por aí vai.

Como estavam em turnê de “A Skeletal Domain”, priorizaram o novo rebento e dele tocaram “Kill Or Become”, “Sadistic Embodiment” e “Icepick Lobotomy”, todas muito relevantes ao vivo e sendo bem aceitas e cantadas pelos fãs da banda. “Devoured By Vermin” de “Vile”, que marcou a entrada de Fisher no lugar de Chris Barnes (atual Six Feet Under), há praticamente vinte anos, foi o ponto final do show. Visceral como de costume, o Cannibal Corpse provou mais uma vez o porquê de ser considerado um dos titãs do Death Metal mundial, mesmo tocando com uma péssima iluminação e contando com uma qualidade de som aquém da esperada.

A ansiedade pelo show do Testament era grande. A relação do grupo com o Brasil vem de longa data, sendo que sua estreia aconteceu na histórica noite de 1° de julho de 1989, quando tocou no finado Projeto SP. Só que o público teve de esperar 18 anos para vê-los novamente em solo paulistano. Mas não temos mais do que reclamar, afinal, de 2007 para cá, essa foi a quarta visita a cidade. Assim como em 2013, o retorno outra vez foi pela turnê do aclamado “Dark Roots Of Earth” (2012). Atualmente considerados como o maior ‘dream team’ do Thrash Metal, Chuck Billy (vocal), Eric Peterson e Alex Skolnick (guitarras), Steve DiGiorgio (baixo) e Gene Hoglan (bateria) deveriam estar no palco às 20h30, mas atrasaram alguns minutos até que, finalmente entraram detonando com “Over The Wall”, para alegria dos fãs old school. O som estava um pouco melhor do que no Cannibal Corpse, mas ainda assim foi insuficiente para que os solos de Skolnick e Peterson fossem ouvidos nitidamente. Quanto à iluminação, não foi monocromática como a do Cannibal, mas também não foi grande coisa. O novo álbum logo foi re-apresentando com a poderosa “Rise Up”, que sem perda de tempo foi interligada a “The Preacher”, do disco que muitos fãs consideram o melhor: “The New Order” (1988).

Na primeira pausa, o gigante Chuck Billy considerou longo o tempo que o Testament demorou para desembarcar no Brasil – embora não tenha sido nem dois anos. Era hora de revisitar o penúltimo álbum, “The Formation Of Damnation” (2008), então foi disparada “Henchmen Ride”. Foi ótima a movimentação de palco de Chuck, Alex e Eric, e a felicidade de estar ali estava estampada no rosto dos cinco, que sorriam e interagiam bastante com a platéia. Outra coisa legal foi o repertório dessa turnê, com músicas que há alguns anos não eram tocadas, caso da própria “Henchmen Ride e mais “Dog Faced Gods” de “Low” (1994), da excelente “True Believer” e de “Legions Of The Dead”, ambas de “The Gathering” (1999), que também foi representado por “3 Days In Darkness” e “D.N.R. (Do Not Resuscitate)”. No show de 2007, essa última ficou marcada negativamente por não ter sido tocada inteira, já que Nick Barker (ex-Dimmu Borgir e Cradle Of Filth), o baterista da época, a errou feio, tendo que aguentar a cara de descontentamento de Peterson para ele.

Hoje o Testament está mais seguro em relação a isso, já que nas baquetas conta novamente com Gene Hoglan que faz juz ao apelido que tem de “Atomic Clock”. Digo novamente, pois, como muitos sabem o músico já havia passado pela banda na época do polêmico “Demonic” (1997). É desnecessário dizer que DiGiorgio, Peterson e Skolnick formam um dos trios de cordas mais afiados que se tem notícia no Metal atual, mas o que esses caras fazem ao vivo beira o absurdo! Isso sem falar que Billy tem o público nas mãos e um vozeirão intacto. Carismático, o ‘frontman’ dava um show de ‘air guitar’, tirando perfeitamente os riffs e solos de seus colegas em sua guitarra imaginária, ou seja, no seu meio pedestal de microfone. Hilário e impressionante!

Clássicos como “Practice What You Preach” e “The New Order” foram destilados junto da mais recente “Native Blood”. Mas os dois momentos inesquecíveis do show aconteceram quando Chuck anunciou o hino “Disciples Of The Watch” de uma forma tão potente que arrepiou, e também quando dedicou “Into The Pit” para os fãs que já preparavam mais um imenso mosh pit. Foi o tipo de show que poderia durar umas três horas que ainda assim todos saíram felizes e nem ligariam para o cansaço. Mas, infelizmente, “More Than Meets The Eye” antecipou o final do show, devido ao atraso da banda, o que culminou com o corte de “The Formation Of Damnation” do set. Muitos, inclusive eu mesmo, sentimos falta de pérolas indispensáveis como “Burnt Offerings”, “Trial By Fire”, “Sins Of Omission”, “Souls Of Black”, “Electric Crown” e “True American Hate”, mas isso não tirou o sorriso do rosto de ninguém. Quem compareceu ao Carioca Club aprendeu em 40 músicas como fazer Thrash e Death Metal de gente grande! Vale dizer também que o público que lotou a casa merece os cumprimentos por se portar de forma impecável durante as apresentações, cantando o tempo todo, agitando e abrindo rodas avassaladoras. Noite espetacular!

TESTAMENT – Set list:
Over The Wall
Rise Up
The Preacher
Henchmen Ride
Dog Faced Gods
Native Blood
Legions Of The Dead
True Believer
Into The Pit
Practice What You Preach
The New Order
D.N.R. (Do Not Resuscitate)
3 Days In Darkness
Disciples Of The Watch
More Than Meets The Eye

CANNIBAL CORPSE – Set list:
Scourge Of Iron
Demented Aggression
Evisceration Plague
Stripped, Raped And Strangled
Disposal Of The Body
Sentenced To Burn
Kill Or Become
Sadistic Embodiment
Icepick Lobotomy
The Wretched Spawn
Dormant Bodies Bursting
I Cum Blood
Unleashing The Bloodthirsty
Make Them Suffer
A Skull Full Of Maggots
Hammer Smashed Face
Devoured By Vermin

GENOCÍDIO – Set list:
Birth Of Chaos (Intro)
Kill Brazil
Transatlantic Catharsis
Encephalic Disturbance
Cloister
Come To The Sabbath (Cover do Mercyful Fate)
Up Roar
The Grave
The Clan

 

Recomendamos Para Você

Veja Também

Close
Close