Live Evil

TESTAMENT E CANNIBAL CORPSE

Circo Voador – Rio de Janeiro/RJ, 20 de novembro de 2015

Já estava na hora de o carioca voltar a dar as caras em peso num show de Heavy Metal na cidade, e não deixa de ser irônico que isso tenha acontecido num feriado prolongado. Sim, porque o Circo Voador estava lotado naquela sexta-feira, Dia da Consciência Negra, quando muitos poderiam ter aproveitado para pegar a estrada. Sorte de quem ficou pela cidade, porque a combinação Cannibal Corpse + Testament foi uma ótima maneira de começar o fim de semana prolongado – a abertura coube ao Uzômi, veterana banda local, mas este que vos escreve não chegou a tempo. De feriado, jornalista só aproveita o trânsito bom, porque a redação nunca para.

O público já havia enchido a casa quando o Cannibal Corpse subiu ao palco para estraçalhar tímpanos e maltratar pescoços com seu Death Metal rolo-compressor, mas altamente técnico. Foram 17 músicas que percorreram basicamente toda a discografia o quinteto nova-iorquino – do álbum de estreia, “Eaten Back To Life” (1990), ao mais recente, “A Skeletal Domain” (2014), apenas “Butchered At Birth” (1991) foi ignorado –, com uma iluminação monocromática que reforçou o massacre sonoro. O vermelho-sangue que preencheu todo o cenário, no entanto, ficou mais colorido sem as bombas e gás de pimenta que marcaram a última passagem do grupo pelo mesmo local, durante as manifestações públicas ocorridas em junho de 2013.

Mesmo com três amostras do último disco – “Kill Or Become”, “Sadistic Embodiment” e “Icepick Lobotomy”, tocadas em sequência –, George “Corpsegrinder” Fisher (vocal), Pat O’Brien e Rob Barrett (guitarras), Alex Webster (baixo) e Paul Mazurkiewicz (bateria) mantiveram a atenção da plateia, e as consequentes rodas de pogo, O início com a hipnótica “Scourge Of Iron” foi apenas o presságio da porradaria que se seguiria com canções que iam da violência mais bruta, casos de “Disposal Of The Body”, “The Wretched Spawn”, “I Cum Blood”, “Make Them Suffer” e “A Skull Full Of Maggots”, a momentos de Metal mais tradicional, por assim dizer, como “Evisceration Plague”.

O Cannibal Corpse cumpriu sua missão, o que ficou claro na reação dos fãs, mas não deixa de ser estranho ver uma banda desse nível de agressividade ser tão estática no palco. Tudo bem que há riffs de guitarra intrincadíssimos (O’Brien é mesmo excelente), todos acompanhados com louvor pelo baixo (Webster é um monstro!), mas dá para agitar – leia-se bater cabeça como se não houvesse amanhã – e também encarar os fãs que estão na pista. O ótimo e velocíssimo Mazurkiewicz faria isso, não tivesse de ficar preso atrás da bateria. “Corpsegrinder”, que falou somente indispensável, poderia ter uma presença de palco à altura do poder da própria voz. Mas e daí? O retorno dos fãs em “Devoured By Vermin”, que fechou o set, meteu um sorrisão no rosto do vocalista. É o que vale.

O som do Testament não é tão brutal quanto o do Cannibal Corpse, e a banda californiana deu uma aula de como usar o palco para fazer um espetáculo. E estamos falando de uma formação que, grosso modo, é o Dream Theater do Thrash Metal. Não fosse o som muito alto, e que ficou ainda mais alto a partir da metade do show, embolando bastante guitarra e voz, o Circo Voador teria recebido uma apresentação antológica. Ainda assim, voltando ao Rio depois de oito anos, o quinteto mostrou por que era atração principal. Por quê? Porque arregaçou.

“Over The Wall” foi um ótimo começo, mas foi passada para trás sem dó nem piedade por “Rise Up” e “The Preacher”, presente e passado do Testament. E foi legal ver como o material mais recente foi bem assimilado pelos fãs, afinal, a faixa de abertura de “Dark Roots Of Earth” (2012) teve participação ativa do público, principalmente no refrão, assim como “Native Blood”, outra do mesmo álbum. E “The Preacher”, claro, causou a comoção que qualquer um poderia esperar, com o riff de guitarra inicial acompanhado em coro por pista e arquibancada. Foi tão bonito de ver e ouvir que Chuck Billy e Alex Skolnick sorriam como se aquilo fosse uma surpresa.

“Henchmen Ride”, de “The Formation Of Damnation” (2008), foi mais uma prova de que o Testament não busca viver apenas do passado. E se ficasse preso apenas a ele, talvez tivesse escolhido outra canção de “Low” (1994) que não “Dog Faced Dogs” – de repente, a faixa-título teria sido calorosamente mais bem recebida. Mas valeu arriscar, porque o que veio depois foi para deixar fã em petição de miséria, mas no melhor dos sentidos. A maravilhosa “Legion Of The Dead” foi uma das quatro músicas pinçadas da obra-prima “The Gathering” (1999). “True Believer”, a igualmente maravilhosa “D.N.R. (Do Not Resuscitate)” e “3 Days In Darkness” com seu coro bem sacado entraram para o rol dos grandes momentos do show.

E como o que é bom pode melhorar, as quatro abraçaram uma leva arrasadora de clássicos: “Into The Pit” transformou a pista num caos, que ganhou força com “Practice What You Preach” e “The New Order”. Tudo absurdamente bem executado por uma banda à beira da perfeição. Se Chuck Billy é um baita frontman e todos sabemos que Skolnick é um dos grandes nomes da guitarra no Heavy Metal (ok, vamos lá: toca uma barbaridade!), palmas também para Eric Peterson, o cara que escreve riffs espetaculares; para o exímio Steve DiGiorgio, que agita tanto quanto domina seu baixo fretless; e do estupendo Gene Hoglan… O que falar desse cara? Um dos melhores do mundo. Simples assim.

“Disciple Of The Watch” fez todos bradarem o “Obey!” de sua letra, encerrando em alto nível a apresentação antes do óbvio bis. Sabe aquele lance de o Testament viver o presente? Pois bem, com tanta história para contar, a banda se deu ao luxo de fechar a noite com duas músicas recentes, as ótimas “More Than Meets The Eye” e “The Formation Of Damnation”, com direito a ‘wall of death’ nesta última. E os fãs estavam lá, ao menos com os refrãos na ponta da língua. E no lugar de qualquer reclamação, apenas a felicidade de ter visto um titã do (Thrash) Metal que ainda tem o que dizer. Isso é ser relevante após pouco mais de três décadas.

Setlist Testament
1.Over The Wall
2. Rise Up
3. The Preacher
4.Henchmen Ride
5.Dog Faced Gods
6. Native Blood
7. Legions Of The Dead
8. True Believer
9. Into The Pit
10. Practice What You Preach
11. The New Order
12. D.N.R. (Do Not Resuscitate)
13. 3 Days In Darkness
14. Disciples Of The Watch
Bis
15. More Than Meets The Eye
16. The Formation Of Damnation

Setlist Cannibal Corpse
1. Scourge Of Iron
2. Demented Aggression
3. Evisceration Plague
4. Stripped, Raped And Strangled
5. Disposal Of The Body
6. Sentenced To Burn
7. Kill Or Become
8. Sadistic Embodiment
9. Icepick Lobotomy
10. The Wretched Spawn
11. Dormant Bodies Bursting
12. I Cum Blood
13. Unleashing The Bloodthirsty
14. Make Them Suffer
15. A Skull Full Of Maggots
16. Hammer Smashed Face
17. Devoured By Vermin

 

 

 

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