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TRIPTYKON – São Paulo/SP, 25 de maio de 2018

Carioca Club, São Paulo/SP

Se existe uma coisa que sempre encheu de tristeza os fãs brasileiros de metal extremo, esta coisa certamente foi a longa ausência dos pioneiros suíços do Celtic Frost em nossos palcos. Porém, com a morte do baixista Martin Eric Ain no ano passado, mesmo a mais infundada e injustificável esperança de que a banda poderia se reunir novamente desvaneceu, e com ela, vaporizou qualquer possibilidade de ver o grupo por aqui. Mas, embora a realidade tenha por costume algumas duras verdades, também pode existir o alívio: O Triptykon, ‘nova’ banda do lendário frontman do Hellhammer e Celtic Frost viria para o Brasil, tocaria em São Paulo, e todos teríamos a chance de pelo menos imaginar o que foi um show do Celtic Frost.

Mas, sabe a realidade, aquela lambisgoia que vez ou outra gosta de se intrometer entre você e seus sonhos? Pois bem, a dita cuja entrou duro no jogo, e com a ameaça de desabastecimento de combustíveis e outras mazelas decorrentes da greve dos caminhoneiros, gerou um clima de incerteza tão grande que foi preciso o próprio Tom Warrior usar os canais oficiais do TRIPTYKON para confirmar que o show aconteceria conforme o planejado. Mesmo assim imagino que este tenha sido o principal motivo para não termos casa cheia nessa apresentação, já que, para boa parte do público, as coisas se tornaram inviáveis ou sofríveis na ida, e principalmente na volta do show.

Com um leve atraso, chegamos ao Carioca Club para nos deparar justamente com essa realidade, um bom público, mas bem menor do que o imaginado. No palco, postadas uma em cada lado, duas grandes ‘bandeiras’ com as capas dos dois álbuns do grupo, Eparistera Daimones (2010) e Melana Chasmata (2014) pareciam ganhar formas e vida sob a luz azul que brilhava, como uma lua malévola, um augúrio profano de uma velha maldição que tocaria todos os presentes. E assim foi. Logo de cara Tom Warrior (guitarra e voz), Stefan Häberli (bateria), V. Santura (guitarra) e Vanja Šlajh (baixo) detonaram a clássica Procreation (of the Wicked), direto do lendário EP Morbid Tales (1984), um aviso de que o legado do Celtic Frost não seria ignorado nesta apresentação.

Sim, com este início, o Triptykon havia criado quase que um cenário de sonho para os velhos fãs do trabalho de Tom Warrior, mas existia a possibilidade (remota) daquele ser um único rebento. Não foi, e logo na sequência veio a prova de que seria uma noite especial, realmente baseada nos velhos clássicos: Dethroned Emperor, outra do Celtic Frost, veio arrancando a carne dos ossos, e nesse momento, greves e crises de abastecimento não era mais uma preocupação, pois só queríamos continuar presenciando essa infernal ode ao metal oitentista.

Uma breve chance de voltar à nossa época foi providenciada por Goetia, faixa que abre o primeiro álbum completo do Triptykon, Eparistera Daimones (2010). Longa, e dotada de um clima denso e soturno, a faixa serviu meio que para quebrar o transe coletivo em que os fãs se encontravam, ao mesmo tempo que revelava todo o poder de fogo dessa banda, que, embora percorra um caminho distinto do velho Celtic Frost, continua desenvolvendo e levando adiante a obra obscura de uma das mentes mais privilegiadas do metal extremo.

Mas, lembre-se, esta seria a noite dos clássicos. Então, de volta para eles, e de volta para o eterno Celtic Frost com Circle of the Tyrants, do eterno To Mega Therion (1985). Dotada de uma energia única e de uma vibração que só os velhos clássicos da ‘podreira’ têm, a faixa levou todos à explosão, coisa que veríamos se repetir ainda várias vezes nesta noite. Ain Elohin, apresentada por Tom Warrior como uma das últimas músicas escritas por Martin Eric Ain, trouxe o último álbum de estúdio do Celtic Frost (Monotheist, 2006) para o jogo, e confesso, também contribuiu para um estranho clima de saudade na noite. Era visível no rosto de muitos a vontade de gritar o mais alto possível para honrar a memória do velho ídolo, ao mesmo tempo em que a voz parecia entalar na garganta, uma emoção tão difícil de vivenciar quanto de descrever.

Into the Crypts of Rays nos transportou de volta aos anos oitenta, e enquanto o ‘cara do gorro’ cantava como um novato ensandecido, a baixista Vanja Šlajh chamava a atenção pela sua curiosa maneira de se movimentar no palco, já que via-se apenas o movimento da cabeleira esvoaçando para todos os lados. Embora tudo isso tenha sido extremamente divertido e interessante, o que dizer da trinca maldita do Hellhammer no final do show? Massacra, Reaper e Messiah passaram como um trem desgovernado, e a infernal Morbid Tales (outra do Celtic Frost) foi o fim ideal para uma noite memorável. Enfim, o gosto de ter visto, pelo menos em parte, o Celtic Frost. “UH”.

 

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