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ULI JON ROTH – 28 DE SETEMBRO DE 2018, São Paulo/SP

CARIOCA CLUB – SÃO PAULO/SP

Quem nunca dedicou algumas horas do seu tempo para montar aquelas famigeradas listas de favoritos? Quando o assunto é guitarristas, a minha lista de preferências muda praticamente todos os dias, mas existem três nomes que aparecem invariavelmente entre os ‘dez mais’: Michael Schenker, Rudolf Schenker e Uli Jon Roth. Não é nem um pouco incomum a aparição constante de um certo Matthias Jabs, então, eu vos pergunto, o que estes quatro nomes têm em comum? Pois é, para a minha surpresa, parece que eu sou bastante fã do Scorpions. Essa recente ‘descoberta’ veio junto com um grande presente: eu teria a chance de ver um dos meus guitarristas favoritos, o grande Uli Jon Roth.

A ocasião era ainda mais especial pelo repertório escolhido como base para esta turnê do grande mestre alemão: o ‘setlist’ seria marcado principalmente por músicas da época em que o maestro integrou o Scorpions, de 1973 até 1978 – época em que foram lançados os álbuns Fly to the Rainbow (1974), In Trance (1975), Virgin Killer (1976), Taken By Force (1977) e Tokyo Tapes (ao vivo, 1978) – algo tão especial quanto imperdível.

Quarenta anos depois do lançamento do clássico Tokyo Tapes, foi justamente com sua faixa de abertura, All Night Long, que o mestre alemão resolveu iniciar a sua apresentação. Contando com o suporte de Nico Deppisch (baixo) Niklas Turmann (voz e guitarra), e Corvin Bahn (teclados, os três do Crystal Breed), e do baterista Richard Kirk, Uli chegou mostrando que a promessa de uma noite especial seria cumprida à risca, com detalhes típicos de sonho. Confesso que nos meus sonhos ele daria sequência ao show com Pictured Life, mas não fiquei nem um pouco decepcionado ao ouvir os primeiros segundos de Longing for Fire. Afinal, quem poderia ficar decepcionado ao ouvir uma das melhores composições de In Trance (1975), sendo tocada por aquele que a imortalizou? E, convenhamos, que performance fabulosa de Deppisch e Turmann, que por instantes, nos fizeram esquecer quem era a principal estrela da noite – algo que só durou até entrar o solo fenomenal desta mesma canção, onde Roth retoma o trono com a segurança e simplicidade de um verdadeiro herói.

Aquele que foi, talvez, o momento mais memorável da noite veio logo em seguida: The Sails of Charon, apresentada pelo alemão como uma música sobre ‘um homem que sempre faz as escolhas erradas’. Pesada (o riff principal é heavy metal puro!), intensa e hipnótica, essa sempre foi uma das músicas que me fizeram sentir como um ‘nascido na década errada’. Confesso que – tendo nascido nos anos 80 – sempre me senti um pouco deslocado no tempo por não ter acompanhado o nascer de músicas como The Sails of Charon (Scorpions), Johnny (Thin Lizzy), Lights Out (UFO) e The Wizard (Uriah Heep). Se a máquina do tempo do Dr. Emmett Brown nunca foi construída, pelo menos tive a chance de ver Uli Jon Roth tocando uma das minhas favoritas, e isso é quase tão bom quanto ser uma década mais velho.

A bonita Don’t Tell the Wind (Zeno) alterou o clima, e trouxe um tom de maior calmaria ao ambiente, até um tanto triste. “Ela foi escrita pelo meu irmão, Zeno Roth, que faleceu no início deste ano, infelizmente”, declarou Uli, emocionando a plateia. Ele aproveitou para tocar outra que não vinha do seu repertório com o Scorpions: Enola Gay (Hiroshima Today), do Electric Sun, banda formada por Uli após sua saída do Scorpions. O peso agradou, e mesmo não lotado – vale lembrar que os finlandeses do Nightwish tocavam nesta mesma noite em São Paulo – o Carioca Club recebeu um bom público, entusiasmado em ver um dos grandes ases da guitarra, ao vivo.

Após We’ll Burn the Sky e In Trance, o público ganhou um tom levemente mais morno em Rainbow Dream Prelude, seguida pelos tradicionais solos, e voltou a pegar fogo com Fly to the Rainbow, faixa-título do primeiro álbum de Jon Roth com o Scorpions. Muito bem recebida, a música abriu caminho para Pictured Life, Catch Your Train e Polar Nights, todas executadas com um virtuosismo absurdo, e com uma vitalidade surpreendente para um guitarrista que completa já cinco décadas sobre os palcos do mundo!

Coube à Dark Lady (In Trance, 1975) e Yellow Raven (Virgin Killer, 1976) prover as últimas gotas de veneno do grande escorpião germânico na noite, mas ainda pudemos presenciar a perfeição por mais duas canções, All Along the Watchtower (Bob Dylan) e Little Wing (Jimi Hendrix). Um às da guitarra, reverenciando outro às da guitarra, em uma noite especial e memorável. Cinco décadas de uma carreira surpreendente passadas a limpo, em pouco mais de duas horas de show. Um show que poderíamos rever todos os dias, mas que só ocorre em noites realmente especiais.

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