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VOLKANA – 28 de julho de 2018, São Paulo/SP

Sesc Belenzinho – São Paulo (SP)

Houve um momento histórico na virada dos anos 80 e 90 na cena metálica de Brasília, em que as mulheres começaram a ganhar força e a conquistar outros eixos do país. Tudo isso na base de muito som pesado. As bandas de destaque eram o P.U.S. – que tinha Simone Death (mais tarde Syang) na guitarra -, Valhalla, Flammea e também a Volkana, que foi bem acolhida pelo público paulistano. Para a Volkana, que contava com Marielle Loyola (vocal, ex-Escola de Escândalos/Arte no Escuro), Karla Carneiro (guitarra, ex-Falange do Medo), Mila Menezes (baixo, ex-Detrito Federal) e Sergio Facci (bateria, Vodu/Vulcano/Viper), aquele foi um período importante, o debut “First” havia obtido grande repercussão. Depois disso, Marielle foi substituída por Claudia França, que gravou o álbum seguinte, “Mindtrips” (1994), e logo a banda encerrou atividades. Felizmente, em 2017 Marielle e Facci reformularam a Volkana e, acompanhados das estreantes Priscila Tiemi (baixo), Karen Ramos e Isa Nielsen (guitarras), retornaram aos palcos. O primeiro show aconteceu em dezembro, em Curitiba (PR) – com Fernanda Terra (ex-Nervosa) na bateria, já que Facci não pôde estar presente. No mês seguinte, rolou o reencontro com o público paulistano num ensaio aberto realizado no Espaço Som.

No último dia 28 de julho, a Volkana retornou à São Paulo, dessa vez para show no Sesc Belenzinho, espaço que tem aberto suas portas para diversas bandas de metal tocar. Minha desconfiança era a de que o grupo brasiliense fosse apresentar um repertório recheado apenas de músicas de “First”, álbum produzido pelo saudoso Carlos Eduardo Miranda, figura importante do cenário brasileiro. Mas o ‘backdrop’ com a imagem da capa de “Mindtrips” ao fundo do palco dava bons indícios de que haveria também músicas do segundo álbum, ainda que o mesmo não tenha sido gravado por Marielle. Caso isso se confirmasse, seria uma atitude bacana da banda. De cara, após curta introdução mecânica, a abertura veio logo com uma de minhas favoritas do debut: a veloz “Darkness”, em que Marielle Loyola, que durante o show utilizou-se de algumas colinhas em um tablet para relembrar as letras, soltou a voz com a mesma desenvoltura que em estúdio. E quão legal foi revê-la em ação depois de quase trinta anos que eu assisti Volkana pela última vez. Desde o início do show, a vocalista mostrou o mesmo carisma, simpatia e energia de antes. Por sua vez, Facci, que também está de volta com o Vodu e seguindo com seu V Project, continua tocando com pegada e de maneira precisa.

“To Die is Not to Die” veio na sequência e teve um tempo de duração maior do que o da versão de estúdio, pois logo nela os músicos foram sendo apresentados à plateia. A linha vocal diferenciada de Marielle no final dessa música me fez refletir que uma das coisas que me fez curtir Volkana desde que a banda surgiu era a atitude, que na época era à frente de seu tempo. Naquele período em que os radicais não perdoavam misturas dentro do thrash metal, a Volkana dava a cara à tapa escancarando a forte influência das raízes punk das integrantes e também absorvendo referências do rap. Essa fusão era evidente não só na pegada vocal de “To Die…”, como também nos arranjos de “War? Where My Enemy Lies” e de “Descent to Hell” – tocadas ao longo do show. No caso dessas duas, em estúdio a banda contou com a antiga dupla Thayde e DJ Hum, bastante respeitada no movimento rap. Em “War?…”, Thayde fez duo com Marielle, ela cantando e ele mandando um impactante ‘spoken word’ em português, enquanto que DJ Hum deixou sua marca com ‘scratches’ nas duas músicas.

Após a forte “That’s My Victory”, que dispõe de partes viajantes bem legais, veio uma das mais aguardadas do show, a versão de “Pet Sematary” (Ramones), que ficou eternizada em “First”. E confirmando a impressão inicial que tive ao ver o ‘backdrop’, a banda executou uma dobradinha de seu segundo álbum. Vieram duas das mais legais, a própria “Mindtrips” e a emocionante “When 2 R 1”, que recebeu videoclipe na época. Essas duas foram as únicas músicas tocadas de “Mindtrips”. Antes de anunciar a seguinte, Marielle ressaltou a importância que o punk rock teve para as integrantes originais da Volkana. A grata surpresa que foi tocada fez o público agitar bastante na pista: “Medo”, cover do lendário Cólera, do saudoso vocalista e guitarrista Redson Pozzi. Voltando à “First”, “Descent to Hell” serviu para que novamente os músicos fossem apresentados. Nesse momento, Facci e Nielsen fizeram breves solos. Depois da mencionada “War? Where My Enemy Lies”, foi engraçado quando Marielle se mostrou incomodada com o vestido que estava usando. Ao ouvir de um “espertinho” pra tirá-lo, ela mandou um simpático: ‘teu cu!’. Risos gerais instantâneos. Toma essa! Outro cover inusitado foi para a imortal “Paranoid”, do agora aposentado Black Sabbath. O final do set veio com “Hide” e com a mesma música que abriu o show: “Darkness”. Mas, a pedido dos fãs, os integrantes continuaram no palco, retomaram seus instrumentos e repetiram também outras três músicas: “To Die is Not to Die” – em que ao final Nielsen instigou o público tocando riffs de “Holy Wars… The Punishment Due” (Megadeth) e “Metal Militia” (Metallica) – e as punks “Medo” e “Pet Sematary”. A banda saiu ovacionada do palco e em seguida desceu pra pista para confraternizar com o público.

Mas antes de atender aos fãs, Marielle Loyola me concedeu uma rápida entrevista no camarim. Ao ser perguntada sobre o que a motivou a retomar a Volkana, ela respondeu: “O pessoal nos pedia muito. Conversámos com a Mila e a Karla (integrantes originais), mas elas estão em outra fase da vida. E eu e o Serginho continuámos trabalhando com música, então sugeri à ele fazermos uns shows. Ele me disse que tinha uma equipe bem legal, ou seja, a Pri e a Isa, e eu tinha a minha parceira de anos (apontando para Karen Ramos, que acompanhava a entrevista), que já toquei junto e tinha vontade de refazer a Volkana com ela. Então, falei pro Serginho: ‘pô, nós somos dois loucos mesmo, então vamos aí!”, revelou a bem humorada vocalista. Complementando, Marielle contou: “Cara, eu trabalho com rádio há vinte anos, e recebendo material de bandas, pensava: ‘a Volkana tem alguma coisa que é diferente do resto’. Digo isso por conta das nossas misturas, e porque a galera até hoje costuma seguir uma mesma linha de som. Na época, recebíamos muita crítica, do tipo: ‘pô, que negócio é esse de misturar com rap?’. Em Brasília, era uma tribo de vários tipos de som, e as pessoas se respeitavam, então trocávamos muita informação. Eu, a Mila e a Karla viemos do punk, e quando entramos no metal pensamos, ‘vamos ter que aprender a tocar’, porque é um estilo que você tem que estudar pra tocar bem”, disse.

Sobre o período bem sucedido do álbum “First”, que teve boa divulgação da gravadora (Estúdio Eldorado), tendo a banda dado entrevistas até em programas de TV como os extintos Fúria Metal (MTV), Jô Onze e Meia (SBT), Matéria Prima e Som Pop (TV Cultura), Marielle revelou o porquê de ter deixado a banda antes de gravar o álbum seguinte: “Tive um problema de saúde na minha família. Meu irmão faleceu um tempo depois. Ele chegou a cantar no disco, fazendo o coro islâmico (na música “That’s My Victory”). Foi vocalista de heavy metal, mas acabou indo cantar ópera. Então eu voltei pra Curitiba (PR), decidi não cantar mais”. A respeito do futuro, a banda não ficará restrita unicamente aos shows. Marielle antecipou algumas novidades: “Já temos três músicas novas a caminho. Lançaremos o “First” em CD, que até hoje não saiu nesse formato. Era para ter saído hoje, inclusive, mas não ficou pronto a tempo. Acho que até outubro teremos uma música nova e um clipe. E eu queria muito fazer uma versão de alguém, de uma banda nacional de repente. Tem que ser uma homenagem. Até dezembro quero lançar umas três músicas novas, incluindo a do clipe, e em janeiro soltar um EP com quatro músicas. Quero fazer um lance muito doido, pois sinto que o mercado está chato”, finalizou.

 

TRACKLIST:

Intro

Darkness

To Die is Not to Die

That’s My Victory

Pet Sematary (cover do Ramones)

Mindtrips

When 2 R 1

Medo (cover do Cólera)

Descent to Hell

War? Where My Enemy Lies

Paranoid (cover do Black Sabbath)

Hide

Darkness

To Die is Not to Die

Medo (cover do Cólera)

Pet Sematary (cover do Ramones)

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